Sexo sim, mas em casa


Um dos personagens mais amados de Curitiba, Luiz Alfredo Malucelli, o ''Malu'', homem de finos sabores à mesa, já passou dos 70. Galã de televisão e rádio no passado, ainda se exibe para ass moças mas, se assediado, tem resposta pronta: ''sou monogâmico. E sem Viagra''. É bem-casado há mais de 40 anos com Deusdith e pai de 7 filhos.
Malu deveria ser eleito o homem-pícaro de Curitiba porque comprova, na prática, o que a pesquisa nacional do Ministério da Saúde detectou: os curitibanos mantêm uma média maior de acasalamento do que os demais brasileiros, 21,7% a 20%. Foi daí que surgiu a idéia de transformar Curitiba na Capital Brasileira do Sexo. Mas o exemplo de Malu, longevo e ativo, sim, só que em casa, mostra que o nosso macho padrão não dá mais uma (ou duas, até três...) contribuição fora do colchão king size tão fácil assim. Mesmo com potencial pra isso.

Rala-rala em casa

A verdade é que o curitibano é mais chegado a levar sanduíche em banquete e comer carne só em churrasqueira própria. Isso é bom ou ruim? Depende do ângulo em que se espiar pelo buraco da fechadura. Pode-se começar com uma pergunta-tostine: curitibano é fiel porque só gosta de um rala-rala com a Patroa ou só gosta de rala-rala com a Patroa porque é fiel?
A resposta mais sensata é que a fidelidade aqui se mantém por baixo (ou por cima) de um grande pavor, que vai ao fundo d'alma do contingente masculino local: ser exposto à execração pública. E não falamos de divórcios litigiosos, prisões, matérias na Globo, manchetes sensacionalistas,
etc,etc. Não é isso.
O curitibano também não teme dar vexame na hora H, enfrentar mulher traída, muito menos ter que usar chapéu para esconder a galhada ou ser chamado de boiola, desculpem, de transgênero. É, pra quem não sabia, o pessoal da banda invertida deve ser chamado agora de ''transgênero''.

Na Boca, não

Mas, continuando, para o curitibano, tudo é permitido desde que não vire assunto na Boca Maldita, o ponto de encontro mais ávido por maledicência da Capital, e que amanhã completa 48 anos. Esse medo da Boca é um cinto de castidade altamente eficiente que transforma o macho local num marido fiel, o namorado do transgênero em companheiro permanente, a pulada de cerca ocasional em flerte à moda antiga.
Ato sexual clandestino mesmo, só se for pra fora do pequeno território entre a Praça Osório e o Trenzinho da Rua das Flores.

Com político é pior

Se para o curitibano comum ficar com aquilo nu nas conversas da Boca já é um pesadelo, imaginem então para um político. O número de histórias sobre recuos estratégicos de políticos na hora H ultrapassa, com folga, o número de votos registrados na Capital. E a causa do recuo nunca é mal súbito, barreado no almoço ou reunião de última hora, desculpas que todos usam quando querem fugir da raia. Nem por falta de confiança no próprio taco.
É por desconfiança mesmo. ''E, se a moça abre o bico numa rodinha'', pensa o político, ''a história se espalha e, no sábado, a Boca inteira vai saber que eu fiquei de meia durante o ato? Vão me apelidar de 'pé-de-meia' e eu nunca mais ganho uma eleição''. Pronto, com a concentração interrompida, vai tudo pra baixo, quer dizer, por água abaixo.

Sem molho picante

Por isso é que o Poder aqui nunca rendeu histórias excitantes, escabrosas ou sensuais. Nem mesmo picantes. No máximo um prefeito obviamente transgênero que deu poder ao motorista. Outro, que ficou com a mão na Patroa, quer dizer, ficou na mão da Patroa por causa de um flagrante instantâneo. Ou um candidato a prefeito que, ao perder a Convenção, detonou o único item da pré-campanha que nunca havia usado: a namorada contratada.
E ali, no núcleo do Poder, o Palácio Iguaçu, historicamente nenhum Governador ultrapassou as medidas do senso comum, nem pra baixo nem pra cima, nem pequeno, nem grande. Um, mais afoito, viu uma reeleição sair pelo ralo por causa de paixão tardia, mas já retornou ao lar. Outro, sempre usou a pressão alta do Poder para manter o punho ereto em público. E ficou só no punho, mesmo.
Diante de cenário tão caseiro, essa história de Capital Brasileira do Sexo arriou de vez.E ''vamo tudo comê radicci e risoto em Santa Felicidade, que hoje é Domingo. E chama a Nona também.

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