RUTH BOLOGNESE
A vergonha do ''Cumpadi Varti''
Jornalismo é oposição, diz o mestre Millor Fernandes, o resto é secos e molhados. Nos bons tempos do ''Jornal do Brasil'', o editor era ainda mais didático: notícia é sempre contra. Por isso, cada guri desses que, por tradição familiar, presunção da vaidade ou por falta do que fazer, toma o caminho da política, deveria aprender, antes de tudo, que nos tempos que correm, elogio em forma de letrinhas não tem valor algum. E a máxima vale também para o Presidente da República e para o vereador de Pindamonhangaba.
O que intriga na convivência com os políticos é que, do Presidente da República ao vereador de Pindamonhangaba, raríssimos são os que aceitam algo menos que a babação, mesmo sabendo que é regiamente paga. Neste pedaço de chão que habitamos, amado Paraná, podemos contar nos dedos (de uma só mão) os políticos que engolem em seco as críticas. O senador Álvaro Dias, PSDB, é um deles. Sofre calado. Outro, por incrível que pareça, é o deputado Rafael Greca, PMDB. Tem chiliques sim, mas em casa. Jaime Lerner entra em depressão quando criticado mas morre de medo de ser chamado de antidemocrata e releva. Quem mais? Ninguém, minha gente. E mesmo os três citados, quando no poder, torraram muito dinheiro público para sustentar a babação.
Imprensa fraca, Paraná fraco
O que os políticos paranaenses precisam entender é que, se não tiver uma imprensa forte e (mais ou menos) livre, porque nunca o é completamente, o Paraná vai continuar sendo um Estado fraco. Esta bobajada de Movimento Pró Paraná, por exemplo, que nasceu em Curitiba para fortalecer o sentimento paranista e fica babando ovo em políticos e assimilados, só consegue lembrar a piada do ''Cumpadi Varti''.
Alguém conhece a piada? É aquela onde o marido traído morre de vergonha ao descobrir que o compadre está ...bem, está chegando na mulher dele. Mas a vergonha é pelo compadre descobrir, ao vivo, a mocréia com quem é casado, não pela traição. Toda vez que o tal Movimento Pró Paraná faz suas homenagens, sem qualquer critério a não ser o do puxassaquismo explicíto, e a imprensa dedica espaço nobre ao evento, dá uma vergonha danada do ''Cumpadi Varti''.
Sofá da sala
Numa província assim, deputados como Ratinho filho e Jocelito Canto, ocupam a tribuna da Assembléia, como aconteceu nesta semana, para ameaçar jornalistas, porque se auto-identificaram numa crítica generalizada. Numa província assim, o governador Requião demitiu, nesta semana, o jornalista Ogier Buchi de um cargo no Governo porque ele detalhou, em coluna de jornal, as acusações entre os secretários Luis Mussi (Indústria e Comércio) e Airton Pissetti (Comunicações).
O que os deputados Ratinho e Jocelito disseram não tem valor algum e nem sequer deve ser levado em conta. É típico de quem nem aprendeu direito a ler jornal, que dirá atuar como parlamentar. Mas, ao demitir o jornalista, e só para manter o exemplo no quarto de casal, o Governador agiu como o marido que, ao descobrir a traição, tira o sofá da sala. Na verdade, não importa a motivação do Ogier Buchi, se agiu como ''pau-mandado'' deste ou daquele interesse. O que está em pauta são as graves acusações entre membros do primeiro escalão do Governo.
Sem respeito
Se realmente pretendem fortalecer o Paraná e reconquistar a imagem de seriedade e ética, os políticos, ou pelo menos aqueles que ainda têm o que o Vô João chamava de ''vergonha na cara'' , devem mais é respeitar (e defender) a imprensa que se propõe a colocar o dedo na ferida. Só a depuração permanente melhora o quadro político e fortalece o Estado.
E querem saber de uma coisa? Bem sincera? O eleitor, aquele que nas pesquisas aparece como ''formador de opinião'', morre de rir quando se depara com políticos falando ''abobrinhas'' ou sendo elogiados. Ninguém é tanço mais não, a ponto de acreditar que um filhinho de papai qualquer tem capacidade real de opinar sobre transgenia ou orçamento público. Até as pedras sabem que a ''opinião'' é pura decoreba e o elogio foi pago.
Por tudo isso, senhores políticos, para continuar nessa parada, é melhor deixar rolar a crítica. A mãe vai telefonar, a mulher exige uma atitude, o assessor, para livrar a cara, diz que o jornalista está a serviço de Fulano ou da Oposição. Esqueçam. Mais dia, menos dia, o joio será separado. E aí, sim, o elogio virá com crédito, por verdadeiro. E ninguém vai mais ter receio do ''Cumpadi Varti''.





