O Paraná adora odiar o Requião

Sobre a psicologia e sua influência no comportamento da humanidade ainda fico com a constatação do ''seo'' Zé Eduardo, dono desta 'Folha': ''Nunca precisei de psicólogos ou terapias pra cabeça. Não sofro dos nerrrvos'', diz, com o conhecido sotaque acaipirado. Tem razão o ''seo'' Zé. Mas quando se pertence a um grupo de pessoas, mesmo sendo 9 milhões como é a população do Paraná, ninguém resiste a observar certas atitudes à luz da psicologia, mesmo sendo totalmente chucra no assunto.
Em quase 30 anos de jornalismo e em permanente contato com os nomes que dominaram o ambiente político no mesmo período, nunca ouvi paranaense algum, em ambiente particular, falar bem do governador Roberto Requião. De Foz do Iguaçu até o Litoral, de Jacarezinho a Francisco Beltrão, na mesa do bar ou na cadeira do dentista, em qualquer lugar, quem tem oportunidade e, desde que garantido pelo anonimato, fala mal do Homem.
Eu e eu mesmo

Recentemente, talvez já convencido por tantos anos de convivência com os contrários, o próprio Governador fez uma auto-imolação e disse que era, sim, ''um sujeito irascível, irritadiço, de difícil trato''. Tudo palavras dele e sobre o quê ninguém discorda.
Quando um curitibano de classe média, desses criados com iogurte de morango e papinha de Neston, quer se mostrar corajoso diante dos amigos diz algo assim: ''na frente do meu chefe, sou meio Requião, falo tudo, vou pras cabeça''. Não faz uma coisa nem outra, mas os amigos captam a mensagem. É pura auto- afirmação.



Raiva e voto

Ora, qualquer político se esmera em vender uma imagem pública simpática, agradável, otimista, corajosa e honesta, quer dizer, honesta nem precisa. Mas, digamos que os políticos mostram o melhor de si para seduzir o eleitor. É do jogo. Então, como se explica que, fazendo tudo errado, dando todos os motivos do mundo para o fuxico generalizado e contra, ele construiu uma das mais bem sucedidas carreiras políticas do Paraná?
Quando foi eleito senador, com uma grande votação, seus adversários diziam que haviam votado em Requião só para mandá-lo, por oito anos, para Brasília, a mais de 1 mil quilômetros do Paraná. O argumento era bom e crível. Mas o tempo passou e eis que Requião voltou e venceu o simpático, bonitinho e sempre plastificado Álvaro Dias, que cuida mais da aparência do que ''perua'' em noite de gala. E voltou como Governador para o Palácio Iguaçu.

Tudo ao contrário

Na parte que nos cabe neste latifúndio, a imprensa ''odeeeeia'' Requião. É um sentimento generalizado e recíproco, que pode ser descrito como um encontro inesperado entre uma barata e um ser humano: ambos ficam tensos, erguem as antenas e se preparam para o pior. Os jornalistas desdenham as piadinhas dele, sempre sarcásticas, e o Governador, quando questionado sobre qualquer assunto incômodo, é capaz de agarrar e torcer o dedo de jornalista até quase quebrar. Não que muitos não mereçam.
E ,se foi de propósito ou não, o assessor escolhido para lidar diariamente com os jornalistas, fazer a ponte e o Palácio Iguaçu e a Imprensa, é um coleguinha chamado Benedito Pires, stalinista, barbudo, mal-humorado, intempestivo e absolutamente antipático, ou seja, dadas as circunstâncias, a perfeição em pessoa. Mais uma vez, a aposta foi exatamente contrária ao que orienta qualquer manual de bom relacionamento com a imprensa.


Perdoa-me por me odiares

A beligerância entre Roberto Requião e os paranaenses não é resultado de disputas políticas ou diferenças ideológicas. É claro que a classe média curitibana mais empedernida e o pessoal do Lerner faz o sinal da cruz quando Requião aparece. Mas a outra parte, aquela que vota nele, também faz. E, engraçado, a crítica é pessoal, quase íntima, como se fosse alguém da família. E dá-lhe histórias de comportamentos requianistas, muitas delas já parte do folclore político local.
E, mesmo sem qualquer base psicológica ou, no popular, sem entender nada dessas paradas de inconsciente coletivo, é fácil concluir que o paranaense, na verdade, adora odiar o governador Requião. Toda vez que fala mal, xinga ou critica, se sente corajoso e estabelece um vínculo de simpatia com o vizinho que, imediatamente, vai concordar com ele e contar mais uma história sobre os desmandos ou atitudes do Governador. E assim, nesta relação de ódio e ódio, Requião se manteve e se mantém na cabeceira da cena política do Paraná há 30 anos. Na hipótese mais pessimista, encerra sua carreira como senador da República. Depois, vai virar nome de avenida, de escola, de estrada e tema de livro. E entrar pela história como mais um ilustre paranaense. Prova inconteste que fuxico e cara feia não fazem mal a ninguém. Só promovem.

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