Parece mas não é (1)

Em Curitiba, Beto não é Richa (sub título)

Além da herança dos imigrantes, historicamente anticomunistas, na mais conservadora das capitais brasileiras, uma outra influência alojou-se na memória coletiva da cidade e ressurge a cada eleição: um arquiteto de olhinhos quase fechados, asmático e com uma cabeça de onde jorra criatividade. Ele mesmo, Jaime Lerner. Há 30 anos, a classe média curitibana, aquela que compra sabonete artesanal para colocar no lavabo social, apaixonou-se por Lerner. E por uma razão compreensível: ele viajava pelo mundo, recauchutava idéias e trazia ares parisienses para a cidade. De provincianos caipiras passamos a cidadãos incomuns, habitantes de um nicho do Primeiro Mundo na imensa favela latino americana. Com Jaime Lerner até o frio curitibano ficou chic e nos deu referencial no Brasil de sol e mar.

Sedas e perfumes
Pensem bem: qualquer mulher se curvaria a um homem que atravessa mares e oceanos, frequenta os mais famosos cabarés e volta para casa totalmente apaixonado E ainda traz de presente ora um corte de seda chinesa, ora um perfume de Paris. E quando ela usa o vestido novo, copiado de figurino estrangeiro, canta sua beleza aos quatro ventos. Curitiba e Jaime Lerner sempre foram assim um com o outro.

Para tão longo amor, óbvios desgastes, rompimentos e distâncias. Mas,apesar de tudo, Curitiba continua procurando Jaime Lerner em todos os candidatos a prefeito. Num protótipo mais delicado como Rafael Greca, só porque o imitava, e até num nipônico, (pelos olhinhos quase fechados, talvez?), como Cássio Taniguchi, fiel servidor. Sejamos lúcidos: num cenário desses que chances teria um petista com opção preferencial pelos pobres, que ''malemá'' fala português e só viaja de mochila por roteiros alternativos, como Ângelo Vanhoni? Ou um bruto como Roberto Requião que, no lugar do perfume manda um litro de leite, e só pensa em construir mais um puxadinho sobre a laje da casa?

DNA de Lerner
Na campanha eleitoral, Roberto Requião disse que Beto Richa carrega o DNA de Lerner. Nada mais verdadeiro. E deu o típico tiro de culatra ao despertar antigas fantasias de tempos em que nos comparavam à californiana San Francisco, cantada por Sinatra, em qualidade de vida, status e civilidade. Era só no eixo Centro/Batel/Jardim Social, reduto da classe média mais abastada? E propaganda existe pra quê, senão para garantir a fé dos mais pobres? Do Sitio Cercado à Botiatuvinha todo mundo tinha certeza que morava na cidade-modelo do Brasil, mesmo que as crianças brincassem no esgoto da frente.

Tantos anos depois, como nos grandes amores, a memória traiçoeira só guardou os bons momentos, que retornam a cada eleição, quando o curitibano volta a debater a cidade. E aconteceu novamente em 2004. Curitiba não votou em Beto só porque ele é filho do velho e bom José, ou está mais ao centro do que à esquerda, mas porque, de alguma maneira, ele lembra o outro, o Lerner. Mesmo muito mais jovem, mais magro, sem olhinhos fechados, incapaz de desenhar uma casinha de cartilha, e de apresentar uma só proposta que Lerner assinaria embaixo, o modelito caiu no gosto da classe média curitibana moldada pelo lernismo. Beto é fino, tem o sotaque local, parece bonzinho, feliz, não faz críticas, sabe ouvir...Com um pouco de imaginação ali, umas frases de efeito decoradas aqui e eis um irmãozinho, não, um sobrinho, quem sabe um primo mais novo do Lerner, Prontinho da Silva.

A marca da fantasia
Não há no horizonte do Beto Richa nada, o menor sinal da escola criativa que marcou Curitiba nos anos 70 e 80. Sem as letras, ninguém seria capaz de diferenciar os projetos de Governo da banda de lá, PSDB, ou da banda de cá, PT/PMDB. Mas, para a classe média curitibana, crente até hoje que aquele sonho da era Lerner, o do ''homem como medida de todas as coisas'' ia muito além do Parque Barigui, e ultrapassava as cidades dormitórios da Região Metropolitana, não foi difícil acreditar em mais uma fantasia. Entregou-se numericamente a Beto Richa. E escolha de voto e de amor não se pode decifrar sob argumentos racionais. Coração, meu Senhor, não obedece à maturidade. Muito menos um coração curitibano.

Continua no próximo domingo com ''Londrina não é PT''

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