RUTH BOLOGNESE
Homens e Meninos
O escritor Fernando Sabino pediu que lembrassem dele como um homem que, ao longo da vida, foi se transformando num menino. Linguagem poética de quem vai passando e limpando a alma, transformando experiências em virtudes sem pecado original.
É possível trazer a bela imagem para a política e, mais ainda, usá-la como exemplo. Porque é intrigante como nossos homens públicos, sem exceção, começam as campanhas eleitorais como senhores da guerra e chegam ao final como meninos travessos, passando rasteiras, brincando de esconde-esconde e contando as mais ingênuas mentiras para ganhar o jogo da urna. Agem mesmo como guris, piás, dispostos a trapacear até a mãe, ou principalmente ela, para cantar de galo.
Os exemplos
Vamos observar: o presidente Lula fez duas viagens ao Paraná: inaugurou um puxadinho do PAI (Pronto Atendimento Infantil) em Londrina e uma sala do Laboratório Central em Curitiba que só vai funcionar no ano que vem. Na ponta do lápis, gastou muito mais dinheiro público do que valem as obras inauguradas. Nas duas visitas, andou de braço dado pra lá e pra cá com os candidatos do PT e, como um menino esperto se fingindo de bobo, não quis falar sobre eleições para não ferir a lei!
Brincando escondido
Durante toda a campanha eleitoral, Roberto Requião percorreu o Paraná inteiro nos aviões do Governo, participou de comícios, tirou fotografias, comeu, dormiu, ficou nervoso, tudo por conta do erário. E a máquina pública está sem fôlego de tanto trabalhar para os candidatos do Governo. No segundo turno, o governador tirou licença de três dias para dar uma força ao candidato do PT/PMDB em Curitiba, Ângelo Vanhoni. Como, licença do Governo?
Taí, o guri brincou a manhã inteira, não fez a lição e agora quer permissão da mãe para brincar mais 15 minutos. Pode?
No jardim da infância
Nos últimos dias da campanha, em Curitiba, até senhores vistos como guardiões da seriedade e da ética na política, como o ex-ministro Euclides Scalco, conhecido como ''O Calvinista'' pela ausência de jogo de cintura na área, voltam a mais tenra infância. Scalco, o senador Osmar Dias, o presidente da Assembléia, Hermas Brandão, e o deputado Gustavo Fruet, chamaram a imprensa e foram juntos até o Tribunal Eleitoral para denunciar abuso de autoridade da Polícia Militar e de poder econômico por parte do Governo na campanha.
Enquanto isso, um candidato a vereador aliado, Geraldo Yamada, era filmado, literalmente, comprando votos para Beto Richa. E grande parte dos atuais secretários da Prefeitura, aqueles que tem esperança de permanecer no poder com a passagem do vice-prefeito para titular, se mudou de mala e cuia para a campanha.
Meninos sim, que aprontam as traquinagens, mas se escondem atrás do boletim com boas notas.
Troca-troca
Em termos de ideologia, gente que era do ''bem'' mudou-se para o ''mal'' e vice-versa nestas eleições. Ou, no popular, foi um troca-troca generalizado, mais coisa de guri, impossível. O governador Roberto Requião teve como parceiro de corrida de rolimã, Giovanni Gionnédis, o ex-secretario da Fazenda de Lerner e, até ontem, inimigo número Um. Os deputados Paulo Bernardo, Jorge Samek e Ângelo Vanhoni, recém-saídos do seminário de boas intenções foram logo formando dupla com a galera do PTB, tão habilidosa nas artimanhas de tirar vantagem em tudo.
Na reserva
Sem resistir ao troca-troca de tamanhas proporções, Rafael Greca liberou geral e filiou-se ao PMDB. Entregou-se aos meninos do outro lado, sem nenhuma exigência recíproca, e descobriu, tarde demais, que teria que ficar no banco de reservas, de quarentena, até pegar as manhas do lado de cá. Como vingança, cruzou os braços e amuou. Coisa de guri mimado mesmo.
Já Gustavo Fruet, jogadorzinho talentoso mas meio lento, devidamente escanteado no time peemedebista, largou tudo e foi para a outra banda. Mas ainda não selou acordo com cuspe.
Os meninos do Interior
A única diferença entre os guris da Capital e os piás do Interior é o sotaque. Em Londrina, Antônio Belinati é daqueles de deixar pai e mãe de cabelo em pé. Apronta todas, nunca é culpado de nada, se finge de coitadinho o tempo inteiro e, às vezes, consegue ser tão convincente que ganha até agrado.
Nedson Micheleti cresceu rápido demais e, meio desajeitado, tenta alcançar os colegas nas peraltices, sem muito sucesso. Emburra fácil, grita na hora errada, mas não é de roubar o lanche no recreio. No final da campanha, Nedson deu estinlingadas no time adversário mas, desastrado como sempre, errou no foco.
Nas arquibancadas
Enquanto essa molecada se diverte, briga, joga lama uns nos outros, conta lorotas e vantagens, nós eleitores apenas observamos. Com o mesmo olhar complacente dos mais velhos porque sabemos que a encenação final é parte do jogo. Entre os dois que disputam, vamos escolher, hoje, o mais eficiente e maduro para comandar o time. E determinar que, a partir de amanhã, os guris deixem as chuteiras em campo, vistam seus ternos e voltem a trabalhar. Como gente grande.





