Que vantagem Maria leva?



Sobre a participação da mulher na política, vale a mais conhecida de todas as autocríticas: não entramos em clube que nos aceitam como sócias. Os números comprovam. Se a medida comparar a presença feminina na sociedade e a representação parlamentar, vale o Top Less. No Paraná, por exemplo, apenas 24 mulheres foram eleitas prefeitas na disputa por 399 municípios. Ou seja, no corpo social, nosso espaço cobre apenas o essencial.
E, pior, estamos cada vez mais desconfiadas. Esta insistência em reservar cotas nos partidos e puxar cadeiras nas reuniões, não é à toa. Aí tem! Lembram de quando eles batiam na nossa cabeça e nos arrastavam pelos cabelos, para dentro da caverna? Então, era só pra sexo. E a gente se fingia de morta, porque não sabíamos o que podia acontecer se o bicho ficasse mais nervoso.
Tantas eras depois, a não ser que faça parte de preliminares mais exóticas, não ocorre a homem algum arrastar uma mulher pelos cabelos por causa de sexo. A grande maioria prefere que ela dirija até o motel. E quem se finge de morto é ele, se o bicho não despertar.
Então, abrir espaço em terreno demarcado de macho, e de graça, acreditem, não é por causa de nossos belos seios turbinados, não. Na verdade, companheiras, os homens nos querem na política porque se embaralharam tanto, mentiram e esculhambaram tanto o exercício do poder que o brasileiro só tem dois sentimentos na frente da urna: obrigação e desconfiança.

Ou tudo ou nada

Então, eles chegaram à seguinte conclusão: ou restabelece-se a moralidade já, ou o próprio povo vai exigir, num futuro breve, que o Ratinho Jr, Zeca Dirceu, Belinatinho, Stuartizinho, Requiãozinho e, correndo por fora, bem velhinho, o voto limpo do Rubens Bueno retomem os duelos para chegar ao Palácio Iguaçu. E vai ficar olhando de fora e torcendo para que não sobre ninguém.
Nesta cruzada, já pensaram em chamar de novo os irracionais na Roma Antiga nomearam o Incitatus para o Senado mas, em termos de grossuras, o cavalo ganhava sempre porque tinha duas patas a mais do que os senadores, e acabou cassado.
Foi então que surgiu um animal, já domesticado, que atendia, de um por tudo, o perfil desejado: esperto, apegado a Casa e capaz de colocar e tirar a mão do jarro com a velocidade do som. Sim, o gato. Perfeito até por ser nome conhecido no meio político. Mas não funcionou. A primeira CPI mostrou que o gato fica com o rabo preso fácil, fácil.

A solução mora ao lado

Desesperados, os homens pediram colo. Como sempre, nós consolamos e, de repente, um deles levantou a cabeça e...eureka! Quem mais, senão as mulheres, mantêm intactos conceitos como fé, confiança e dedicação a uma causa? Vejam, há milênios dão vida, embalam e alimentam a humanidade sem pedir 10% de comissão. E, muito mais importante: só as mulheres são capazes de perdoar os pecados mais hediondos, do assassinato em primeiro grau ao voto nos candidatos do PFL.
Agora, sedutores, eles garantem que, através da política, poderemos globalizar a maternidade. Para isso, basta que cada mulher assine a ficha de um partido, qualquer um, do PFL ao PT. Mas como, ''no diferences''? Esqueçam os detalhes, dizem. E só pedem pra gente trazer junto os mesmos princípios que exercemos desde que a companheira do Homo sapiens pariu aquele guri peludinho, quase um macaquinho. E a ele se dedicou de corpo e alma.
Algumas de nós já se renderam, movidas pela fé intrínseca no homem bom. São aquelas santas capazes de acreditar que o batom na cueca do marido foi mesmo brincadeira do pessoal do futebol.
Vai valer a pena?
As mais desconfiadas aguardam os acontecimentos. Afinal, acumulamos princípios imemoriais de solidariedade e doçura. Guardamos mistérios bíblicos, sabemos disfarçar olheiras e dominamos a arte de amansar qualquer macho com a receita de pudim da mãe dele. Trocar tudo isso por uma cadeira no Congresso ou banheiro separado na Câmara, para usar terninhos ou casar com um milongueiro argentino de olhos azuis, não parece um bom negócio, não.
Quando estamos entre nós, sabemos distinguir, num bater de cílios, as dissimuladas, as interesseiras e qual médico operou aquele nariz. Sinceras e transparentes ainda acreditamos, sim, em fidelidade, ética, respeito e em levar o lixo prá fora como as melhores ações, tanto para salvar a relação, como para melhorar a convivência entre partidos, sistemas e países.
Por isso,antes de entrarmos com fé e vontade na política que aí está, nos perguntamos: que vantagem Maria leva?

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