RUTH BOLOGNESE
A sorte é nossa
Desde que NuÀes Cabeza de Vaca descobriu as Cataratas na Foz do Iguaçu (e mesmo que tivesse outra cabeça seria impossível ignorá-las), e esboçou o futuro território dos paranaenses, nosso povo busca uma identidade que o caracterize diante de outros povos, tão marcados por determinados símbolos.
Por exemplo: falou em chimarrão, é batata, a gente lembra de gaúcho. Falou em Pão de Açúcar, surge o carioca. Antônio Carlos Magalhães, a Bahia. Cachaça? Se você lembrou do presidente Lula, errou. Procure lembrar do Vale do Jequitinhonha, que pode ter nome feio mas não expulsa ninguém do País.
Nós, paranaenses, ao contrário, não temos nada que nos identifique, assim, de pronto. Itaipu? Não, lembra os militares. E agora o Jorge Samek, do PT. Terra roxa, talvez? Não, isso é coisa dos londrinenses que só ficam pensando em como pegar o Paraná inteiro pra eles. Vamos fingir que nem ouvimos. Soja? Milho? Além de ser um tanto brega ligar a finesse local a leguminosas, a soja do Paraná virou jeca perto das transgênicas. Chitãozinho e Xororó nasceram aqui em Astorga. E daí?
Mas existe uma boa possibilidade de toparmos com um símbolo para nossa identidade. Nesta semana, a Caixa Econômica nos deu o caminho das pedras com uma pesquisa onde os paranaenses surgem como os maiores acertadores de loteria do Brasil. É um povo sortudo, que só vendo. Ou jogando. E, de fato, é só olhar em volta para concluir. Falou em sorte, olha o Paraná aí, gente! Vamos às provas:
Geografia
O Paraná teve a sorte da fronteira do lado de baixo ser com Santa Catarina e não com a Argentina. Podem comparar no mapa. Agora, imaginem o contrário e aí a mais famosa festa do Sul, a Oktoberfest seria feita só com argentinos. Conseguem imaginar? Mas não pára aí. O casal Marta Suplicy/Luiz Favre (ele é argentino mas, porque morou na França, se diz franco-argentino, veja o tipo) ia ficar passeando pelo Paraná, a toda hora, em eterna lua de mel. E, no pai de todos os pesadelos, pensem na vitória final da Argentina, numa Copa, urrando em toda a nossa fronteira?
Prova maior de nossa sorte, ao nos livrarmos disso tudo, impossível.
Clima
Com tanta variedade climática no Paraná, tem marido em Curitiba que, por causa do frio, só vai ver os pés da patroa, ao vivo e a cores, na viagem de bodas de prata para o Caribe. Com o susto, às vezes acaba largando a mulher por lá, mas aí já teve filhos e garantiu a preservação da espécie. Além disso, o clima variado mantém a agricultura, as paisagens diferentes e os curitibanos em Curitiba.
Neste último caso, sorte do Interior.
Sistema bancário
Olha só que beleza! O Paraná foi o único estado da Federação que trocou dois bancos, o Banestado e o Bamerindus, pelo Movimento Sem Terra. Nenhum paranaense precisa se preocupar mais em cobrar taxas de juros nem em evitar assaltos e, ainda por cima, tem sem-terra carpindo as fazendas. E de graça.
Ninguém avisou que os sem-terra, depois de carpir, iam ficar com as fazendas. Nem que eram tão amigos do Requião. Mas com a sorte que a gente tem, todo mundo acaba indo embora. Todo mundo mesmo!
Educação
Temos boas universidades, graças a Deus. São estaduais, que pagamos do próprio bolso. Políticos de outros estados brigaram tanto que as universidades deles são todas federais, pagas pela União. E ainda se gabam de pressionar Brasília a favor dos seus estados. No Paraná, não. É uma benção ter políticos como os nossos, que não dão um pio em Brasília. Confusão pra quê, né?
Indústria
O Paraná trocou suas grandes indústrias por multinacionais. E o Governo Lerner, a gente reconhece, foi um pai para as estrangeiras! Emprestou dinheiro, doou terrenos e, olha que coisa, nem imposto quis cobrar.
Agora, as multinacionais é que têm que garantir o emprego para trabalhadores dos seus países e ainda ganhar muito dinheiro para enviar lucros para a matriz. Nós, paranaenses ficamos pobres, sim, mas vamos para o céu. Ou ninguém se lembra da história do rico e do camelo que passa pelo buraco da agulha, etc, etc.?
Casamento
Todo casamento tem a benção de Deus justamente porque, se não tivesse, seria um Deus nos acuda mesmo. E é uma sorte casar no Paraná. Dificilmente um ser humano sobreviveria sozinho nos campos intermináveis de soja, na solidão dos campos gerais ou no frio do Sul. Nos Nortes Pioneiro, Velho e Novo, sem mulher pra lavar a roupa encardida da terra roxa, nem monge sobreviveria. Ou, principalmente, um monge.
Sorte de quem?
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