Guia de Prestígio para Candidatos
  
Você já viu algum candidato, em qualquer eleição da história da humanidade, aparecer amarfanhado, com jeito de pobre, humilde, sem graça? Lembrar de Jesus Cristo e do Antonio Belinati, não vale. Jesus Cristo porque nunca disputou nada além da indicação para a crucificação e ganhou de Barrabás, o que do ponto de vista de marketing pessoal não pode ser considerado uma vitória. E Belinati porque não engana mais ninguém: no fundo, no fundo, o eleitor sabe que Belinati finge ser aquilo que realmente não é e vota, na verdade, no ‘‘não 钒.
  Então, caro candidato, você tem que mostrar seu prestígio, palavra-chave para ganhar a confiança do eleitor. Mas, para isso, será preciso saber o que significa ‘‘ter’’ prestígio, não apenas parecer que tem. É ao contrário da mulher de César que não basta ser honesta, tem que parecer que é. E entender esse texto deve estar mais difícil do que fazer torresmo em casa, mas vamos em frente.
  Abaixo as principais características que cercam um cidadão prestigiado. Se você se enquadrar em, pelo menos, 8 delas vai saber o que realmente conta, no Paraná, para um candidato ter prestígio ou não.
n Convite para ir ao Palácio Iguaçu
  Só vale mesmo se for feito por telefone do terceiro andar, onde fica o Primeiro Gabinete, ou do Primeiro Carro, pelo cabo Anselmo, ajudante de ordens, e com a seguinte frase: ‘‘na hora em que o Sr. puder’’, referindo-se a você.
  Se o convite for via celular do próprio Governador e aos gritos, de-sa-pa-re-ça. Não é sinal de prestígio, coisa nenhuma. Certamente você trabalha no governo, e algo fez. Ou não fez.
n Convite para o Canguiri
  Se você não sabe o que é Canguiri, tudo o mais que se escreve aqui é grego. Volte a assistir as Olimpíadas. Se souber, prossiga. Mas é bom saber que convite para cavalgadas com o Governador, de madrugada, só vale como sinal de prestígio se você for hóspede na Granja do Canguiri e seu cavalo, idem.
  Do contrário, cuidado: o governador reserva os animais mais inquietos para os novatos e você pode acabar numa quiçaça com a boca cheia de grama. Ou significa que você levantou as duas da matina, engoliu um gole de café colocado ontem na térmica, não sabe se vai de tênis, bota, jeans ou gravata e está andando com um pé só, procurando o outro pé da meia pelo quarto. E no escuro, para não acordar a patroa.
  Isso lá é sinal de prestígio?
n Convite para almoçar no Canguiri
  Com uma missão da China ou do Japão, só vale se você for o prefeito de Curitiba, Cássio Taniguchi. A não ser que você seja o intérprete, está ali apenas como figurante e baixando e levantando a cabeça sem saber se o sujeito está xingando sua mãe ou falando de suas sobrancelhas. Com outros prefeitos paranaenses, por exemplo, depende do número. Mais de 3 já é uma coligação, o que não dá camisa pra ninguém.
  Se for com a patroa e ela te beliscar, é sinal que todos os outros secretários estão sozinhos e quando chegar em casa aí sim, você vai ouvir...
n Carne de avestruz
  Se você é o único convidado do almoço na granja do Canguiri e o prato principal for carne de avestruz, das duas uma: pode ser a última refeição de um condenado e amanhã seu nome estará nos jornais com o indefectível ex, antes do cargo. Ou a avestruz estava doente e será sua última refeição de qualquer jeito.
  Se dona Maristela disser que ela mesma preparou a carne de avestruz, cuidado. Pode não ser deferência mas, sim, um teste e a cobaia é você.
n Primeiro nome
  Quando El Supremo, maior autoridade do Estado, chama alguém pelo primeiro nome é um sinal de prestígio. Mas tem outros significados :1) se seu primeiro nome for ‘‘Doático’’, não quer dizer nada, apenas que você é o ‘‘Doático’’; 2) se o Governador chamar alguém pelo nome completo, aí depende: Giovanni Gionédis só vale se você for o próprio e estiver ao lado, num palanque eleitoral. Se for em público e em tom bem alto, finja que não é com você, mesmo sendo.
n Roupas
  No atual governo, ir de terno para o Palácio Iguaçu é muito brega. Mas o usar jaquetão azul com jeans desbotado e sapato marron tem lá sua importância. Isso, se seu nome for Roberto Requião de Mello e Silva. Do contrário, nessas alturas, o Governo inteiro está rindo de você. Inclusive o próprio.
n No carro oficial
  Circular por Curitiba no banco de trás de um carro oficial, dirigido por um PM, é um bom sinal de prestígio. Mas atenção: se você olhar a paisagem e tudo parecer quadriculado, o nome do carro oficial é camburão e nem precisa se preocupar em dar o endereço do seu destino. O PM sabe.

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