RUTH BOLOGNESE
Carros para os deputados
Lembram de toda aquela onda moralista que o presidente da Assembléia, Hermas Brandão, fez para recolher os carros dos deputados? Pois foi tudo jogo de cena. Cada deputado está recebendo R$ 7.500,00 da Casa por mês, para comprar um novo veículo, que será colocado em seu nome e nem precisará ser devolvido no final do mandato.
Moleza melhor do que essa, minha gente? Só os R$ 20 mil que os próprios deputados recebem de ajuda de custo por mês, sem precisar apresentar nem nota fiscal.
Uma história para domingo
''Era uma vez um grupo de amigos, todos do MDB Velho de Guerra, todos ainda com cabelos, magros e no primeiro casamento. Eram eles, Luis Carlos Romanelli, Stenio Jacob, Nizam Pereira, Acir Mezzadri, Frederico Marés e Bonifácio Cabral e alguns outros. Roberto Requião, o mais ousado deles, alto, de olhos azuis, com bela voz e também magro, virou o líder do grupo. Lá se vão 30 e poucos anos.
Novos tempos
A luta contra a ditadura e a consequente atividade política os uniram sempre. Mais perderam do que ganharam eleições. No período de vacas magras, quando imperou a era Lerner, cada um se virou como pode. Sobreviveram. E ajudaram a eleger Roberto Requião senador pelo PMDB, que ficou 8 anos em Brasília.
E depois de tanto tempo, voltaram todos, gloriosamente, para o Palácio Iguaçu, com Roberto Requião eleito Governador pela segunda vez. Agora, quase todos com bem menos cabelos, mais gordos e alguns deles no segundo, terceiro e até no quarto casamento. Voltaram a conviver quase diariamente.
Novos personagens
E, nessa convivência, os velhos companheiros estão percebendo pequenas e sutis mudanças no comportamento do antigo companheiro. Requião recebeu com alegria as garrafas de vinho argentino que alguns levaram no aniversário dele. Mas se entusiasmou a olhos vistos com os Romanee Conti (R$7 mil a garrafa), presente de um empreiteiro. Mora numa chácara distante, onde cavalga puros sangue nas manhãs geladas do Sul. São novos, sofisticados hábitos.
Os emergentes
Ainda ri das piadas dos ''Velhos de Guerra'' mas se cerca de advogados como Paulo Henrique Xavier, o PHX, (colecionador de Ferraris), de procuradores como Sérgio Botto de Lacerda (louco por motos), de promotores como Luiz Fernando Delazari (também louco por motos) e Daniel Godoy (louco por motos e ex-interlocutor do Waldomiro Diniz). Um grupo de cabelos fartos, magro e, para quem a condição conjugal, desimportante em nossos dias, não se leva mais em conta. No Governo são conhecidos como ''Os Emergentes''.
As diferenças
E estes novos conselheiros tem duas características que assombram os antigos. A primeira é a atuação fria, profissional, quase asséptica, com que lidam com as situações de Governo, como se cada decisão não envolvesse milhares de paranaenses de carne e osso. E emergentes sim, na medida em avançam sistematicamente sobre a máquina pública e suas peculariedades.
A segunda característica é a atitude de obediência quase servil com que se comportam diante do Governador e de sua impulsividade inata. Recém chegados, neófitos na convivência com Requião, não sabem discernir entre o que deve ser seguido à risca e o que simplesmente tem que ser ignorado. Sintonia fina que só se aprende com o tempo, moldada por paciência quase que inesgotável. Mas é matéria básica e decisiva para manter em equilíbrio um Governo. Principalmente este Governo''.
Sem ação
Nesse quadro, o vice governador, Orlando Pessuti, que poderia influir na busca do bom senso, aquietou-se. Ele foi eleito com o apoio de cooperativas e produtores rurais, e diverge do caminho tomado por Roberto Requião na direção do MST, na proibição dos transgênicos e nas questões do Porto de Paranaguá. É uma espécie de algodão entre os cristais, totalmente imobilizado.
Na Casa Civil
O chefe da Casa Civil, Caíto Quintana, que deveria ter, diante do Governador, posições mais firmes sobre determinados assuntos, se comporta sempre como um grande ofendido. E acaba fazendo um jogo próprio, interessante aos seus próprios objetivos. E na Assembléia, o líder do Governo é do PT, o que deixa os deputados peemedebistas em permanente estado de perplexidade.
Assim é
Juntam-se a tudo isso, os irmãos Maurício e Eduardo em áreas fundamentais como Educação e o Porto de Paranaguá, e elevam, assim, a temperatura emocional do Governador. A partir daí é possível entender como funciona o atual Governo, seus problemas e dificuldades. A aproximação das eleições para prefeito vai acirrar todas essas contradições. É tese para anos e anos de terapia em grupo.
Bem, já deve estar quase na hora do almoço.Pena que a tecnologia impressa ainda não permite que essa ''Folha'' leve aos seus leitores, além das notícias, o cheiro do macarrão com frango de todos os domingos.





