Que o debate político no Paraná é medíocre, antigo e sem graça, isto todo mundo sabe desde a separação de São Paulo. E, se não tivesse separado, só haveria uma inversão de personalidades nos cargos: um prefeito da Capital (Kassab) que se irrita e grita com manifestante e um tucano mais calmo (Serra) no Palácio Iguaçu. O fato é que, 109 anos de emancipação política depois e, ainda hoje, a única crítica que um adversário consegue fazer sobre o outro por aqui é: ''você rouba mais''.

Nesta semana, o governador Roberto Requião jogou no ar uma cifra de R$ 10 milhões que, do DER teria passado para a campanha eleitoral de Beto Richa ao governo em 2002. E provocou, mais uma vez, imediatas e iradas manifestações (e anúncios pagos com dinheiro público) do prefeito de Curitiba.

Ora, até pela longa convivência, o estilo peculiar de governar de Roberto Requião já é mais do que conhecido entre os pinheirais, cafezais e canaviais do Paraná: ele simplesmente chama o adversário da hora de ''ladrão''. E fica esperando o rojão de volta. É um boquirroto, diria a Vó Maria. É. Mas é, também, o governador no terceiro mandato que, em fim de carreira, vai detonar geral até o último dia de Palácio Iguaçu. E o pior inimigo, já disse o guerreiro, é aquele que não tem nada a perder.

E é neste terreno pantanoso que o filho do José Richa está se esforçando para ser o Anti-Requião, ou aquele cavaleiro de cabelo alinhado a base de gel a enfrentar o dragão furioso. Por enquanto, conta com dois ou três assessorezinhos de ternos bem passados (não necessariamente bem cortados) que, ao menor sinal do Palácio Iguaçu, se empertigam feito gatos arrepiados. E dá-lhe manifestações indignadas, como se isso bastasse para mudar o rumo das coisas.

É bom para Beto Richa ser o Anti-Requião? Em termos de estatura política, um prefeito lutar contra um governador, pode ser. Há quem diga que ele abre a porteira para todo mundo que tenha algo a vingar contra o EL Supremo entrar na luta. Neste caso, metade dos paranaenses, menos os 10 mil votos a mais que lhe garantiram o terceiro mandato e o pessoal da Monsanto, das cooperativas, agronegócio,portuários, etc, etc. É gente que não acaba mais.

Mas, para ser o Super-Anti, nosso prefeito teria que, em primeiro lugar, deixar de responder com gritaria histérica à artilharia pesada do governador. Dará sempre a impressão de agir só quando o outro lhe ataca os brios, como já fez na última campanha eleitoral e sem grandes resultados em termos de votos. A defesa da honra, com assustados chiliques, só prejudica a imagem. Pior, defesa da honra quando se trata de doações e financiamentos de campanha eleitoral, pecado original e universal, não convence nem chamando a própria mãe, como fez Beto Richa.

O que dará consistência para este entrave, que veio para ficar, é o prefeito curitibano liderar uma oposição consciente e responsável, como manda o figurino. Mas, antes de qualquer coisa, ele terá que dar uma catacrada no próprio partido, o PSDB, que teve uma boa parte de suas lideranças a bandear-se para o lado de Requião na última campanha e que conta até com um tucano no atual secretariado. Depois, ao invés de ficar valorizando e respondendo às papagaiadas do governador, Beto Richa prestaria um grande serviço ao Paraná se liderasse um grupo de deputados na Assembléia Legislativa para apontar e cobrar do atual governo, com firmeza, os deslizes e equívocos. A começar, por exemplo, pelo mais óbvio, a permanência da parentada na máquina pública. É assim que uma liderança verdadeira se consolida. É assim que funciona a democracia.

O que se viu esta semana foi um desrespeito à inteligência dos paranaenses: nossas duas principais lideranças tentando transformar uma à outra, pela imprensa, em pessoas indignas, corruptas, mentirosas, despreparadas e fora de prumo.

E isso, minha gente, não é democracia. É briga de comadres raivosas.

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