Maringá

Marcos NegriniVigilânciaOs ruralistas ficaram até o final da tarde na entrada da fazenda, protegida também por policiais militaresUm grupo de aproximadamente 60 fazendeiros da região de Paranavaí fez ontem a desocupação da Fazenda Saudade, no município de Santa Isabel do Ivaí (a 78 quilômetros de Paranavaí). Dois sem-terra ficaram feridos durante a ação dos fazendeiros. No início da tarde de ontem, apenas Gilson Ferreira de Almeida, de 27 anos, continuava internado no Hospital Municipal de Santa Isabel do Ivaí, com fraturas nas costelas. A propriedade era ocupada desde fevereiro do ano passado por cerca de 40 famílias de sem-terra, e tinha a reintegração de posse determinada pela Justiça há mais de um ano.
Segundo versão dos fazendeiros, por volta das 6 horas eles chegaram na propriedade desarmados e com dois caminhões. Os líderes dos sem-terra foram avisados que a área seria desocupada e os fazendeiros começaram a colocar as mulheres e crianças nos veículos. O irmão da dona da fazenda, José Carlos Mascarelo, disse que só ruralistas e alguns funcionários da fazenda participaram da retirada dos sem-terra. Ele garante que os próprios sem-terra colocaram fogo nas barracas, queimando inclusive os pertences pessoais e um carro Panorama.
O coordenador do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) na Fazenda Saudade, Giovani Braun, disse que cerca de 80 homens encapuzados e fortemente armados chegaram atirando nos barracos, por volta das 4 horas da manhã de ontem. Ele disse que os sem-terra não resistiram e que as armas utilizadas denunciam que a operação teve a participação de policiais. Braun garante que os próprios fazendeiros colocaram fogo nos barracos, ‘‘para apagar as marcas de tiros feita pelos capangas deles’’.
O líder do MST em Querência do Norte, Nildemar da Silva, denunciou que a ação de ontem foi uma estratégia da Secretaria de Segurança Pública do Paraná. Ele garante que entre os homens que fizeram a desocupação havia policiais. ‘‘Tenho certeza que são pessoas treinadas e com armas exclusivas da polícia ou do Exército, que não se compra em qualquer lugar’’, disse.
José Carlos Mascarelo disse que a ação dos fazendeiros não tem nada a ver com a União Democrática Ruralista (UDR) ou o Movimento Nacional de Produtores (MNP). ‘‘Um grupo de amigos e vizinhos ficou revoltado com a situação da propriedade e decidiu tirar os sem-terra, já que o governo não tem garantido a reintegração de posse’’, afirmou Mascarelo.
Segundo Mascarelo, as famílias que estavam acampadas na fazenda destruíram boa parte da pastagem, que ocupa quase toda a área, de 1.020 hectares. Nas últimas semanas, os sem-terra impediram que Mascarelo e os funcionários entrassem na propriedade para tratar dos animais. Na sexta-feira da semana passada outra parte do pasto, com cerca de 60 alqueires, foi queimada, e o gado estava praticamente sem alimento. ‘‘Nos últimos dias os líderes mandaram eu tirar o gado porque eles iriam arar toda a terra, mas não tenho para onde levar os animais’’, disse Mascarelo.

mockup