''Ontem a noite recebi um email do meu ex-companheiro de viagem dizendo que na volta uma forte rajada de vento jogou ele fora da estrada e o tombo foi inevitável. Apesar do susto e de alguns danos na moto, está tudo bem com ele.
Fui até o Fuorte Bulnes, contruído para defender o Estreito de Magalhães dos piratas. Também passei na zona franca de Punta Arenas e me surpreendi com a quantidade de opções de compras e alguns bons preços, mas como não tenho nenhum espaço disponível, me limitei a comprar pequenas baboseiras. Vi muitos pinguins, passei um frio danado e peguei um ripio (trecho pedregoso) terrivel.
No dia seguinte, com um sol maravilhoso, fui a Torres del Paine, um parque nas montanhas da Cordilheira dos Andes, cercado por belos rios e lagos. Devido à altitude, as montanhas ficam com os picos congelados até no verão. O parque é um dos locais mais belos em que já estive. Pena que é tão pouco divulgado no Brasil. É um local que todos devem tentar visitar em algum momento de sua vida...eu RECOMENDO.
Fiz rapidamente as aduanas chilena e argentina, seguindo rumo a El Calafate, uma cidade pequena mas aconchegante e fervilhando turistas por todos os lados. Raros são os brasileiros por aqui, a grande maioria é de europeus e americanos, sendo uma boa parte deles jovens muchileiros. Acredito que os brasileiros ainda não descobriram as belezas da Patagonia.
Calafate é também o nome de uma planta que dá uma pequena fruta roxa; dizem que quem come a fruta volta algum dia a El Calafate. Se volta mesmo eu não sei, mas que a pequena fruta mancha a roupa como uma amora, eu descobri da pior forma possivel...
Depois de 4 dias sozinho, cheguei à conclusão de que assim a viagem fica mais séria e responsável. O cuidado tem que ser redobrado, pois em caso de algum acidente, você está sozinho; acabam as brincadeiras e você passa a ser dono das suas paradas e responsável pelas mudanças de planos.
Sai bem cedo rumo ao Glacial Perito Moreno. Eu já havia visto diversas fotos do Glacial, mas quando fiz a última curva e deparei com a vista do paredão de gelo ao longe, cheguei a parar a moto, de tão impressionado. É realmente lindo e grandioso. Algo que nós, moradores ''de um país tropical'', não imaginamos existir. O paredão tem cerca de 70 metros acima do lago e uns 100 abaixo da água, já que fica sobre o solo. O Perito Moreno é um dos poucos glaciais que se encontram em equilíbrio, ou seja, a neve que cai compensa praticamente o que ele perde com o degelo.
O dia 13 foi o mais difícil da viagem. Meu primeiro abastecimento deveria ser em Las Horquetas, mas quando cheguei lá o posto não tinha gasolina. Tive que desviar cerca de 60 km do meu roteiro, até Rio Gallegos. Lá, resolvi tirar uma foto usando o tripé e o vento, que até então não tinha conseguido me derrubar, acabou derrubando tripé com câmera e tudo. Fiquei desesperado com isso, pois as fotos são para mim o ponto alto de qualquer viagem, uma forma de manter a viagem viva e poder dividi-la com os outros.
Toquei para San Julian mas nos três primeiros hotéis visitados não achei vaga e fui em frente. Depois de 340 km, cheguei a Caleta Olivia, onde também não achei hotel. Rodei mais 80 km até Comodoro de Rivadavia. Confesso que várias vezes durante este dia pensei em desistir. Depois de 1100 km rodados no dia e sem saber o que fazer, resolvi dormir.
Comprei uma câmera mais simples para terminar a viagem. Agora, com a câmera nova, segui a viagem, mantendo meu roteiro.
Amanhã sigo para Bariloche. Meu pneu traseiro está muito desgastado e com certeza não chegará até Londrina; achar este pneu da V Strom aqui na Argentina será quase impossivel.''

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