Rumo à Terra do Fogo - Parte 1
A Folha Cidades inicia hoje a publicação do relato da viagem de Júlio Lima, que partiu de Londrina no último dia 27 de dezembro para uma viagem de 13 mil quilômetros, de moto, rumo a Ushuaia, no extremo sul da Argentina, na região conhecida como Terra do Fogo. Através de e-mails enviados semanalmente, Júlio vai mostrar todas as fases da viagem. O texto de hoje conta como foi o início da aventura, prevista para terminar no próximo dia 24.
''Sai de Londrina conforme o planejado, no dia 27 de dezembro, às 9:45 hs.
Meu pensamento era tomado por dois sentimentos totalmente antagônicos, pois ao mesmo tempo que estava muito alegre - afinal, o dia tão esperado havia chegado - também sentia um grande medo e insegurança com o desconhecido, de como o meu corpo iria encarar esta aventura, bem mais desafiadora que a fiz há dois anos.
Com o passar dos quilômetros a inseguranca se foi e o prazer e a liberdade de estar novamente na estrada foram mais fortes.
Em Curitiba encontrei meu amigo e companheiro de viagem, o Messias de Mogi das Cruzes, e juntos vencemos os três primeiros dias, cruzando o Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Uruguai. Ao final do dia 29/12 já estavamos em Colonia del Sacramento, no Uruguai, depois de 2.252 km rodados.
Nesses três dias o melhor ficou por conta do belo litoral catarinense e da visita ao farol da Barra do Chui, no Rio Grande do Sul, o ponto mais ao sul do Brasil. Por outro lado, o pior, com certeza, foi o trecho não duplicado da BR-101, de Florianopolis a Osório, sempre tão perigoso e por tantas vezes com sua duplicação adiada.
No dia 30/12 atravessamos o Rio da Plata no luxuoso Buquebus, um ferryboat que atravessa os 50 km em cerca de 45 minutos. Este ferry é rápido e muito confortável, com poltronas de avião, filmes a bordo, lanchonete, mas é um conforto que custa caro. A travessia minha e da moto custou cerca de R$ 230,00.
Passamos rapidamente pelo trânsito infernal de Buenos Aires e novamente estávamos na estrada. Depois de 523 km rodados chegamos em Coronel Pringles, uma pequena e aconchegante cidade agrícola típica do interior da Argentina.
No dia 31 saimos cedo, pois teríamos que rodar 850 km antes de chegar a Puerto Madryn, onde passaríamos o Ano Novo. Este com certeza foi o dia mais difícil, pois entramos no deserto da Patagonia sobre um calor infernal. A Ruta 3, que corta este deserto, é uma excelente estrada, mas suas longas retas cercadas de ''nada'' por todos os lados chegam a ser desoladoras e causam um certo medo e solidão. Chegamos às 20 horas exaustos em Puerto Madryn, tomamos um rápido banho e fomos tentar jantar, o que se tornou um desafio, já que todos os restaurante estavam lotados e acabamos ficando na mão. Assim, aprendemos uma boa lição: nunca chegue na véspera de Ano Novo em Purto Madryn...
No dia 1º resolvemos ir a Punta Loma, onde tem uma reserva com leões marinhos. Teríamos que rodar 17 km de estrada de ripio (um tipo de brita), que seria muito interessante para um teste, pois vamos ter que rodar mais de 900 km desse tipo de piso nos próximos dias.
Visitamos a reserva, entramos na fria praia do Atlântico Sul. Na volta um caminhão me fechou e eu comecei o ano com um pequeno tombo no ripio. Sofri alguns arranhões e o pedal do freio ficou totalmente torto. Depois de muita força e criatividade para desentortá-lo eu estava novamente pronto para continuar a viagem.
No momento do tombo achei que o sonho de chegar a Ushuaia tinha acabado ali... Um sentimento ruim, que não quero experimentar novamente.
No segundo dia do ano resolvemos ir num passeio de van para a Península Valdes. Um passeio longo (450 km) de um dia todo, mas imperdível, onde vimos lobos e leões marinhos, pinguins, além das belas paisagens dessa imensa península.
No dia seguinte sairíamos cedo rumo a Comodoro de Rivadavia.''
(Continua na próxima segunda-feira)





