Rumo à Terra do Fogo - Final
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 25 de janeiro de 2005
por Julio Lima 
''Aos poucos a estepe patagônica começa a ficar para trás e no lugar vem a bela floresta temperada dos Andes Sul. Passei por Esquel para poder entrar na internet e passar meu diário de bordo para a Folha de Londrina e me surpreendi com a beleza da cidade. No fim da tarde já estava em Bariloche. Logo encontrei alguns motociclistas de Erechin e de Floripa, que conhecia através da minha página na net e vim conhecer pessoalmente aqui em Bariloche...mundinho pequeno...
Já se passaram 20 dias que saí de Londrina e meu odômetro marca 9588 km rodados. A saudade da familia égrande. Fui até Cerro Catedral, a mais famosa estação de esqui de Bariloche. Subi o cerro num teleférico e depois fiz uma caminhada de 2 horas até o cume, perfeito para visualizar os lagos e picos da região. Um dia para guardar na memória...
Próxim destino: Pucon, no Chile. A estrada segue ao lado do rio Traful, de água tranparente, onde as pessoas praticam pesca esportiva. Pucon é uma cidade muito aconchegante com belas termas aos pés do Vulcão Villarrica. A última erupção do Villarrica foi em 1984, e ele solta uma fumaça o tempo todo como se fosse uma chaminé. Para os turistas uma visão exótica e bela, mas para quem mora por ali é uma preocupação contante. O Villarrica é um dos únicos vulcões ainda ativos onde se pode chegar caminhando até a beira da cratera e ver a lava fumegante.
Resolvi voltar por Vila La Angostura, um outro caminho de asfalto. A estrada é uma das mais belas que já passei. Os lagos andinos e as reservas florestais são magníficas. Em Vila La Angostura encontrei um grupo de 4 motociclistas de Falcon 600 de São Roque.
Mais adiante, em Neuquen, esperei o comércio abrir e fui trocar o óleo e o filtro da moto. Aproveitei para procurar o pneu mas não achei para o aro 17. Neuquen é uma cidade excelente, no meio do deserto, com a economia baseada no plantio de frutas temperadas (maçã, pera e pêssego), petróleo e turismo.
No percurso até Santa Rosa passei pela Ruta Provincial 20, uma estrada famosa por ser uma reta única de mais de 200 km, que atravessa o deserto de La Pampa. Essa estrada é conhecida pelo grande número de acidentes com motoristas que dormem devido à monotonia da viagem e por isso é chamada de ''La Muerte''.
Nos últimos dias tenho sentido algumas dores nas costas e muita dor na mão direita, que fica o tempo todo na mesma posição no acelerador. Já são 11.579 kms rodados e agora faltam pouco mais de 2.500 kms kms para chegar em casa. Já estou ficando craque em arrumar a bagagem na moto, um ritual que se repete todos os dias. No começo da viagem eu chegava a demorar 30 minutos, agora não levo mais de 10 minutos.
Saí de Santa Rosa cortando as províncias de La Pampa e Santa Fé, uma região estritamente agrícola. Como sou agrônomo, me sentia em casa entre as plantações de girassol, soja e milho. Depois de 828 km cheguei a Santa Fé e fui ao mesmo hotel que havia ficado na viagem passada. Apesar do cansaço ainda tive tempo para uma volta num agitadíssimo calçadão atrás do hotel.
Segui até Paso de los Libres na divisa com Uruguaiana, mas não entrei no Brasil, e continuei beirando a divisa brasileira rumando a Foz. A estrada era completamente deserta e depois de 750 km cheguei a Posadas. Pensei e resolvi tocar até Foz, pois assim adiantaria a chegada em Londrina. Êta vontade de chegar em casa...
O tempo muito nublado e a notícia de chuva pelo caminho me preocupavam, pois a aderência do pneu na pista molhada seria um problema. No último pedágio antes de chegar a Londrina estavam 3 amigos do Moto Clube a minha espera, o que me deixou muito feliz. De lá segui para a moto peças Street Cicles de onde tinha saido dia 27/12 e depois para a sede do M. C. Pés Vermelhos, onde pude curtir um churrasco de boas vindas...a viagem estava terminada...missão cumprida. Eu sentia um misto de dois sentimentos antagônicos: felicidade por estar novamente em casa com minha familia e amigos e por ter realizado esta aventura com sucesso e ao mesmo tempo triste, pois os dias de viagem e aventura haviam chegado ao fim.
Para finalizar, eu queria agradecer muito a minha familia e aos amigos que torceram por mim. Pode parecer estranho, mas nos momentos mais difíceis, quando a solidão e insegurança batiam forte, eu sentia esta torcida vindo de longe. Enviar essas mensagens com noticias da viagem foi um prazer e um incentivo a continuar apesar de tudo. Quando eu sai daqui, o odômetro da minha moto marcava 4.574 km, e ontem, quando voltei, 18.585km, ou seja, foram 14.011 km rodados. Valeu...agora é começar a pensar na próxima''.


