Ruínas jesuíticas se perdem por descaso
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sábado, 26 de abril de 1997
Marcos Zanatta Sucursal de Maringá 
Marcos NegriniSem efeitoPlaca instalada na entrada do sítio arqueológico não impede a presença de estranhos e a invasão de posseiros SANTO INÁCIO - A falta de recursos e de definição pelo Governo do Paraná para documentação da área onde estão as ruínas da Missão Jesuítica de Santo Inácio Menor, no município de Santo Inácio (a 91 quilômetros de Maringá, na divisa com o Estado de São Paulo), têm impedido qualquer ação para preservar um dos principais patrimônios arqueológicos do Estado. Durante alguns anos, a Prefeitura de Santo Inácio tentou transformar a região da ruína em área controlada para visitação.
Sem dinheiro, nem ao menos para elaborar um projeto, e esbarrando na falta de documentos oficiais, o município desistiu da idéia. Hoje tentamos junto ao Ministério da Cultura o repasse de verbas para a construção de um museu, que vai abrigar os objetos recolhidos na região das ruínas, informa o secretário geral da prefeitura, Volnei Bega.
Durante 30 anos, o aposentado Benedito Alves de Almeida lutou para montar um museu com os objetos recolhidos nas ruínas da missão. Agora tentamos ao menos valorizar o trabalho do senhor Benedito, diz Bega.
Coleta de material Almeida chegou em Santo Inácio em 1947, vindo de uma fazenda no município de Sandovalina (SP). Em 1961, ele iniciou um trabalho de coleta de material. Até 1990, recolhi centenas de objetos, inclusive com a ajuda de arqueólogos de Curitiba, conta.
O principal objetivo de Almeida era montar um museu, além de lutar pela preservação da área onde estão as ruínas. Como vereador e delegado, quando Santo Inácio ainda era distrito de Jaguapitã, ele chegou a tentar a retirada de posseiros da área.
A maior mágoa de Almeida hoje é a destruição quase total das ruínas. Ele conta que há cerca de 10 anos, quando as ruínas eram cercadas por matas nativas, a falta de um trabalho de preservação acabou permitindo que posseiros entrassem na área das missões. Eles passaram até com o trator por cima das poucas ruínas que ainda existiam, destruindo o mínimo que restava da missão de Santo Inácio, lamenta.
Marcos NegriniRelíquiaBenedito de Almeida mostra a urna funerária com mais de 400 anos
Almeida revela ainda que, como a área das ruínas era totalmente aberta, muitas pessoas sem nenhum conhecimento entravam no local para coletar peças. As pessoas acreditavam que existiam tesouros enterrados e acabavam destruindo material de grande valor histórico. Ele lamenta ainda que muitas peças, que poderiam fazer parte de museus, foram levadas por moradores da região apenas como lembrança e acabaram sendo desprezadas.
O secretário Bega conta que durante uma visita a uma propriedade rural encontrou ao lado de uma casa uma pedra trabalhada. Parecia uma espécie de lâmina de machadinha e dava pra notar que era uma peça da missão jesuítica.
Ele diz que recolheu a pedra e guardou em casa, na expectativa de que o município construa um museu para abrigar os objetos da missão.
Até os posseiros que moram na área dizem que já coletaram material nas ruínas. O agricultor Irineu Pereira dos Santos diz que está no local há 32 anos e que nunca recebeu ameaça de ser retirado.
Ele conta que encontrou pedaços de espadas e objetos metálicos nas ruínas, perto da margem do Rio Paranapanema, que separa o Paraná do Estado de São Paulo. Há alguns anos, veio um pessoal da patrulha rural aqui e levou tudo, afirma.
Ossada Com o fechamento das comportas da Hidrelétrica de Taquaruçu, há cerca de quatro anos, pesquisadores de algumas universidades do Paraná e de São Paulo realizaram buscas e escavações no local. Foi encontrada, inclusive, uma ossada humana, que Almeida não sabe nem para onde foi levada.
Boa parte desse material está em museus e na Universidade Federal do Paraná, em Curitiba. Hoje, aos 67 anos, enfrentando dificuldade de locomoção, Almeida reclama da falta de interesse pela preservação das ruínas e do material coletado.
Na década de 80, ele conseguiu montar um museu com apoio da prefeitura, no Centro Social Urbano (CSU). Há alguns anos, conseguiu também que as peças que estão em Curitiba fossem devolvidas. Mas não temos nem como ir buscar esse material, confessa. Como o espaço do museu no CSU era pequeno, as mais de 100 peças foram transferidas para uma sala no Colégio Estadual Manoel Almeida.
A vice-diretora da escola, Antônia Martins dos Santos, revela que o museu do colégio é visitado por estudantes de toda a região. Mas ela acredita que a falta de local adequado e de divulgação impedem uma visitação maior.
Sozinho Nos mais de 30 anos em que estudou e visitou as ruínas da missão de Santo Inácio Menor, Almeida diz que nunca recebeu apoio de órgãos oficiais. O máximo que consegui foi a ajuda de alguns estudantes e pesquisadores, que me ensinaram noções de escavação.
Quase sempre ele vencia a pé os mais de 5 quilômetros entre as ruínas e a rodovia de acesso a Santo Inácio, onde pegava o ônibus para a cidade. Muitas vezes carregando peças pesadas, mas com o prazer de ter cumprido um dever, diz.
As peças mais importantes coletadas e classificadas por ele são algumas pedras brutas e uma urna funerária. As pedras não eram polidas, como as utilizadas na época das missões, o que dá para deduzir que existiam civilizações mais antigas na região, antes mesmo da chegada dos índios que acompanhavam os jesuítas.
Restauração A urna funerária, guardada numa área fora da missão de Santo Inácio, tem mais de 400 anos, pelos cálculos de Almeida. Feita em argila extraída das barrancas do Rio Paranapanema, a urna foi encontrada dividida em várias partes e recebeu restauração.
Almeida informa que não existiam vestígios de ossada humana em torno da urna. Ele acredita que, pela situação do material, os ossos foram retirados.
Os esforços de Almeida nunca chegaram a ser reconhecidos no País mas, pelo menos, despertaram o interesse de pesquisadores do exterior.
Em 1982, o padre italiano Emílio Da Cavasso, depois de visitar as ruínas da missão de Santo Inácio, divulgou o trabalho de Almeida em um artigo no jornal LObservatore Romano, editado pelo Vaticano.


