Existe uma máxima popular que afirma que ''nada dura para sempre''. É bem provável que isso seja verdade, mas existe também uma outra expressão, que trata da durabilidade das coisas, que nem sempre é verdadeira: ''Tudo que é bom dura pouco''. O restaurante O Casarão, que sobreviveu por mais de 20 anos na Avenida Maringá, em Londrina, é uma exceção à regra.
Ainda hoje a ''choperia e pizzaria'', como estampou em sua fachada por muito tempo, está presente na memória, e não somente a gustativa, de muitos londrinenses. E isso se deve tanto ao seu cardápio, que incluía filés, pizzas e feijoada, mas pelo ambiente agradável e aconchegante. Sem esquecer do cheiro de carneiro assado, que era preparado lentamente na churrasqueira em frente ao prédio, e que impregnava o local e convidava os pedestres e motoristas da Avenida Maringá a muito mais do que um ''happy hour''.
Inaugurado em 26 de março de 1975, pelo argentino naturalizado brasileiro Juan Capel Molina, O Casarão contou, já em sua noite de abertura, com a presença de políticos e personalidades da época. A FOLHA registrou a abertura da casa e em foto destacou na mesma mesa o ex-prefeito e ex-governador José Richa, os deputados federais Nelson Maculan e Olivir Gabardo e os jornalistas Walmor Macarini e Aníbal Vieira da Cruz.
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Filho de espanhóis, Juan Capel Molina, proprietário de O Casarão, já havia fundado em Londrina, em 1953, em sociedade com um grupo de japoneses, a fábrica de baterias Reifor. Cidadão Honorário da cidade, Juan Molina inaugurou o restaurante numa época em que a região da Avenida Maringá contava com poucas casas e servia de palco para os desfiles de Carnaval.
O ''velho Molina'', como os amigos se referiam a ele, esteve no comando do Casarão por mais de vinte anos, passando o cargo para seu neto, no fim da década de 1990, por causa da saúde debilitada. Falecido em 2000, seu Casarão até hoje deixa saudades no jornalista Oswaldo Militão. ''Era um local famoso pela qualidade. Quanto a isso não há dúvidas'', definiu o jornalista, que destacou ainda as várias atividades filantrópicas realizadas por Juan Capel Molina, como chás e encontros beneficentes.
O jornalista lembrou ainda que também era comum o local ser ponto de encontro para negócios. ''Era muito usado por autoridades, jornalistas e professores da UEL'', destacou Oswaldo Militão. ''Outra coisa que chamava muito a atenção era a qualidade dos pratos, em especial a feijoada aos sábados. Você encontrava toda a sociedade, era um sucesso'', lembrou Militão.
Já para a professora do departamento de História, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Sonia Maria Sperandio Lopes Adum, pensar no Casarão traz lembranças de seus primeiros anos como docente da UEL. ''Lembro que os professores saíam do CCH e ficavam horas no local discutindo posturas teóricas'', ressaltou Sonia. ''Mas aquele ambiente também me era muito familiar porque eu morava naquela região e sempre frequentava o restaurante com minhas filhas, que adoravam brincar por entre as mesas e nas árvores da varanda'', disse.
Ainda de acordo com a historiadora, não somente a sociedade londrinense, no auge do restaurante, era outra, mas a lógica empresarial também. ''A sociedade mudou muito. Hoje se pensa muito no lucro e no cliente como parte do negócio. Já no Casarão havia um sentimento de familiaridade, realmente parecia que estávamos em casa. Além do fato de a comida ser ótima'', argumentou Sonia, que lembrou do bacalhau, do joelho de porco (o tradicional eisben alemão) e das pizzas. Sonia conta que era comum as pessoas se sentarem sempre nas mesmas mesas, além de manterem longas conversas com garçons.''Ainda hoje encontro ex-funcionários do Casarão que me perguntam sobre minhas filhas e a família'', disse Sonia Adum.
O Casarão fechou suas portas no início de 2000. No local, apenas uma pizzaria ocupou o prédio por um período, e, desde então, a casa permanece fachada e cada vez mais deteriorada numa das áreas mais nobres da cidade. De acordo com Jurandir de Souza, assistente administrativo da Imobiliária Niedziejko, há interessados, mas até o momento nenhum negócio foi fechado. ''Muitos querem um estacionamento maior. Hoje é assim'', destacou Souza.

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