Londrina - É um festival de trombadas, agarra-agarra, uniformes sujos de tanto serem arrastados pelo gramado. Arranhões e hematomas são inevitáveis. Mas tente falar que não parece esporte de mulher. "Existe muito desconhecimento. Pensam que o rúgbi é um esporte bruto, masculinizado. Quem conhece sabe que não é assim. É como qualquer outro esporte de contato. A equipe brasileira feminina de rúgbi sevens foi campeã sul-americana várias vezes e faz parte do circuito mundial, ao contrário da masculina. Mas essa visão (de que é um esporte violento) faz com que muitas meninas tenham receio de praticar."
A declaração é de Érika Afra Bordoni, de 23 anos, estudante de Arquitetura. Ela é jogadora da Associação Atlética Londrina Rugby, time de rúgbi sevens da cidade, que no sábado passado ficou em quarto lugar na segunda etapa do Campeonato Paranaense Feminino, no Estádio Vitorino Gonçalves Dias. Outras cinco equipes estiveram na disputa, vencida pelo CRC, de Curitiba, campeão dos outros quatro Estaduais já realizados e que participa do Brasileiro da modalidade. As outras três etapas do Paranaense de 2015 serão realizadas em agosto, em Toledo, e em novembro, em Guarapuava e São José dos Pinhais.
Érika, que não jogou no sábado por ter se machucado na primeira etapa, disputada em Curitiba em março, conta que foi "fisgada" pelo rúgbi em 2010, quando se mudou de São Paulo capital para fazer faculdade em Londrina. "Sempre estive envolvida no meio esportivo. Uma das meninas que moravam comigo me falou do pessoal que treinava no Zerão. Gosto dos princípios do rúgbi: o respeito, a disciplina, é como se fosse uma família", relata.
O time de Londrina existe desde 2009. Mudou de nome algumas vezes e no último sábado jogou com a camisa do LEC. "O perfil predominante das jogadoras é de estudantes universitárias. Mas queremos formar também um time juvenil. Já temos meninas de 10 anos treinando", diz Érika. Pouco difundido no Brasil, o rúgbi, que estará presente nas Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro na modalidade sevens (como o nome indica, com sete atletas por time; a outra modalidade tem 15 jogadores por equipe), ainda vive no amadorismo.
"Só uma jogadora do nosso time recebe Bolsa Atleta. Jogamos porque gostamos. A gente arca com todos os custos. O campeonato foi a gente que organizou. Para ajudar, fazemos rifas, eventos", diz Érika. A própria opção pelo sevens é resultado da dificuldade em atrair praticantes. "Seria muito complicado arranjar 15 meninas para jogar. Sete já é difícil", aponta a estudante.
Gabriela de Pellegrini, de 21 anos, participou de todas as campanhas do tetracampeonato estadual do CRC. "Comecei a praticar rúgbi no clube. Meu pai era jogador e eu conhecia a modalidade desde criança", relata. Apesar da paixão, ela não vislumbra a possibilidade de se profissionalizar no esporte. "Nem a seleção é profissional. As atletas recebem bolsa do governo, por causa dos Jogos Olímpicos. A profissionalização pode acontecer, mas é algo distante. Quem pratica é porque gosta do esporte", diz Gabriela.
O CRC possui um projeto social, e uma universidade particular é uma das apoiadoras. "Muitas meninas fazem faculdade de Educação Física. Dessa forma, vão acabar fazendo carreira com algo relacionado ao esporte", explica a atleta, que tem que conciliar as aulas no curso de Arquitetura da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) com treinos e jogos. "Treinamos quatro vezes por semana, e eu tenho aula quase em período integral. Se você gosta de alguma coisa, você vai levando. Mas é bem puxado", admite.

EVOLUÇÃO
Juarez Villela Filho, vice-presidente da Federação Paranaense de Rugby, destaca que o rúgbi sevens feminino tem evoluído no Paraná. "Até 2011, o rúgbi feminino ia meio a reboque do masculino. Por exemplo, se um time masculino ia jogar em Londrina, o feminino ‘aproveitava’ o ônibus e ia também. De 2011 para 2012, houve um grande salto. Hoje, o feminino tem um circuito autônomo. Existem mais equipes, em várias cidades do interior", explica.
Quando o Campeonato Paranaense Feminino de Rugby Sevens teve início, a federação tinha cerca de 50 atletas inscritas. Hoje, são 125. "A maioria já praticava outro esporte, futebol, handebol, de onde saem muitas meninas para o rúgbi, por também ser praticado com as mãos, ter muito contato", diz Villela. "Existe uma semiprofissionalização. A seleção brasileira feminina mora em São Paulo. Alguns atletas têm patrocínio de marcas esportivas, tanto do feminino quanto do masculino." Segundo o dirigente, o Paraná tem uma atleta na seleção principal de rúgbi sevens e duas na seleção premium, uma espécie de time B.

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