Paulo WolfgangImaginaçãoRubem Alves critica o modelo de ensino brasileiro: ‘‘A educação é antes de mais nada uma arte’’Rubem Alves defende prazer na escola
Marcos Gouvea - Como o sr. avalia o modelo de ensino no País?
Rubem Alves - Eu creio que esse sistema educacional é profundamente cruel e burro. Então eu queria defender um sistema educacional muito mais simples e mais racional. Nós nascemos para ter prazer. Qual é o objetivo da Ciência? Bertolt Brecht dizia num texto dele, acho que em ‘‘Galileu Galilei’’: ‘‘A única finalidade da ciência é aliviar a miséria da existência humana’’. O Brecht era muito pessimista, porque só aliviar a miséria é pouco. É preciso aliviar a miséria sim, mas também criar a possibilidade de prazer e alegria, porque para isso fomos criados.
Marcos Gouvea - Como definir prazer e alegria?
Rubem Alves - O prazer é uma experiência para a qual eu preciso da presença do objeto. Se você quer o prazer de uma picanha, tem que existir picanha; se quer o prazer do vinho, tem que existir vinho; se quer o prazer de uma transa, tem que ter uma pessoa com quem transar. Esse é o primeiro ponto. Segundo, é uma experiência que se esgota logo.
A alegria é diferente. Primeiro não precisa da presença do objeto. Na alegria basta a memória. Vamos dizer da seguinte maneira: a alegria se alimenta do inexistente, da memória, da saudade, da poesia... A poesia lida com o inexistente. Veja a poesia do genial Manoel de Barros. Basta você ler esse autor para dar risada. É um amontoada de besteiras absolutamente deliciosas. E a outra característica da alegria é que você nunca fica cheio, nunca se esgota. As duas experiências são muito profundas, muito humanas e eu acho que para isso que a gente educa. O grande objetivo da educação é criar as possibilidades para que as pessoas tenham menos dor, mais prazer e mais alegria.
José Fernando - Mas a escola hoje é sisuda. Ela não trabalha nem com o prazer, e muito menos com a alegria.
Rubem Alves - Eu fico horrorizado de ver o que as escolas fazem com as crianças. O mundo é muito interessante, divertido. As crianças têm um interesse natural, elas vêem as coisas... Para mim, o símbolo do interesse das crianças é o dedinho. É um símbolo de curiosidade. Ela quer enfiar o dedo no buraco, ela quer saber o que está lá dentro. E isso dá prazer, quando você começa a desvendar as coisas. As crianças ficam encantadas. Acontece que os currículos não são construídos a partir do gozo das crianças. Eles são artificialmente construídos a partir de decisões que os chamados especialistas tomam. Então as crianças começam a ter experiências de infelicidade. Minha neta entrou para o pré-primário, para o jardim. Duas semanas depois ela chegou em casa para uma pesquisa para fazer. Seis anos de idade e a pesquisa: ‘‘O que é política’’. Horrível. Cheguei à conclusão que os professores odeiam as crianças. Poderia ser a pesquisa? Poderia. De que maneira? Sai com o papai e com a mamãe por aí, anda pela cidade faz de conta que você é prefeita. Se você fosse prefeita o que você ia fazer de diferente nesta cidade. Mas não. Fizeram a pergunta ‘‘O que é política?’’
José Fernando - Que tipo de preparação dos professores e que tipo de escola poderiam mudar esse quadro?
Rubem Alves - A educação se divide, do meu ponto de vista, em duas partes. Uma das coisas que você tem que aprender são as utilidades. Equação do 2º grau, matemática, física, martelo, tudo que é ferramenta é utilidade. São os meios de viver. Segunda coisa: não basta eu aprender os meios de viver. É preciso saber viver com prazer e alegria. Mas isso implica educação da sensibilidade. Então eu aprendo a gostar da música, de pintura, de um cenário, de comida, do toque. Esse desenvolvimento de sensibilidade tem o nome de sabedoria. São duas coisas: ciência e sapiência. As nossas escolas se dedicam a ensinar ciência, mas não têm tempo para ensinar sapiência.
José Fernando - Algumas escolas nem conseguem ensinar a ciência..
Rubem Alves - Mas os nossos currículos são todos voltados para a ciência. E há uma razão perversa para isso: no Brasil, a coisa mais importante a determinar o rumo das escolas é o exame vestibular. Querendo ou não, são os vestibulares que determinam os padrões de connhecimento exigidos. Quando um pai põe uma criança numa escola, ele que saber se prepara para o vestibular. Mas uma das características do vestibular é que ele não tem o menor interesse pela sapiência, pelo saber saboroso, pela capacidade que você tem de degustar a vida. Alegria e prazer não caem no vestibular, portanto são consideradas irrelevantes. Uma das coisas que a escola deseja é que as pessoas não fiquem com seus próprios pensamentos. Por uma razão prática: é preciso passar no vestibular. Quem passa no vestibular não é quem tem idéias próprias, mas quem conhece as idéias já formuladas.
José Fernando - Como o sr. avalia a proposta do Paulo Renato de investir na preparação dos professores?
Rubem Alves - O governo sempre pensa que dando mais cursos você prepara mais os professores. Eu sugeriria, isso num tom de brincadeira, que os nossos especialistas em educação lessem um pouco o livro sagrado do taoísmo. Ele é todo escrito em verso, e um diz assim: ‘‘No caminho da ciência, a cada dia se acrescenta alguma coisa. No caminho da sabedoria, a cada dia se diminui alguma coisa’’. O pessoal da ciência acha que, acrescentando cursos, dando mais horas-aula, obrigando os alunos a ficar mais tempo na escola, eles vão aprender mais. E eles não vão porque esse conhecimento científico não mexe com a sensibilidade. Numa crônica que escrevi, eu dizia que a TV Globo tem um comercial maravilhoso: floresta de pinheiro, raio de sol, regatos, campos, cavalos selvagens. Você vê aquilo e vai ficando seduzido sem uma palavra. Você não precisa de argumento. A beleza não precisa de argumentos. Até que no final daquilo tudo aparece um cowboy fumando um cigarro. Você veja: já está seduzido pela beleza. Aí, tem um corte, e aparece sob um fundo azul: Ministério da Saúde adverte que fumar causa câncer. É verdade o que o Ministério da Saúde diz? É. Científico? É. Produto de pesquisa? É. Só que ninguém muda as atitudes por causa da verdade do Ministério da Saúde. As pessoas são convencidas, não pelo argumento, mas pela beleza. É com isso que o Ministério da Educação não sabe lidar. O grande mito da educação hoje é a ciência. O que os pedagogos querem é a ciência da educação. Eles têm complexos de inferioridade e não querem ser colocados junto com os artistas. Mas a educação é antes de mais nada uma arte.
José Fernando - Como o professor conseguirá desenvolver essa arte dentro da crise da escola pública?
Rubem Alves - Hoje, na escola, uma criança tem que saber o que é um dígrafo, por exemplo. Isso não tem nada a ver com a vida de um menino da periferia. Uma coisa fantástica para esse menino seria a história, para aprender como é o mundo. Isso abre a cabeça dele. Mas o nossos programas educacionais não são diferenciados. Você sabe como é que fazem os currículos? Os especialistas vão tomar as decisões e colocar o que acham que são importantes: dígrafo, análise sintática, todas essas coisas, que não estão relacionadas com a vida das crianças. Mas aquele menino da periferia está passando por uma situação vital. A ciência do menino precisa estar relacionada com que ele vive. Um professor genial que conheci, Mário Turacchi, dizia que o ensino de matemática precisava de três coisas: cabeça, lápis e papel. Para mim a questão da educação não tem a ver com computador, que é importante, mas não é o essencial. A educação tem a ver com a imaginação dos professores. Do jeito que nós estamos as pessoas estão proibidas de ter imaginação.
Seria bom se cada comunidade tivesse a possibilidade de pensar suas questões. Seria fantástico se uma comunidade da periferia pudesse pensar o que é importante saber para ele própria, a questão da água, da saúde. Então você vai desenvolver a biologia relacionada com aquilo, você desenvolve a matemática... A geometria trata da questão dos espaços, como é que os espaços são organizados. Você pode fazer uma geometria baseada nas experiências espaciais de uma criança de favela. Mas para isso é preciso que não haja uma determinação rígida sobre que deve ser ensinado.Era preciso dar um voto de confiança aos professores, para que, dentro de certas orientações gerais, eles tivessem liberdade para elaborar os próprios materiais.
Marcos Gouvea - Essa proposta não pode ser chamada de utópica?
Rubem Alves - Isso é utopia, mas, como diz Mário Quintana, ‘‘tristes seriam os caminhos sem a luz mágica das estrelas’’. As utopias não estão aí para ser realizadas. Mas são certos horizontes que você constrói para perceber o absurdo das situações que estamos vivendo. É possível criar esta escola que estou falando? Não. Mas é possível que os professores sejam mais criativos, mais livres, mesmo dentro dos limites que vivemos.

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