Curitiba tem 280 pessoas que dificilmente sairão das ruas até a morte. São os chamados indigentes crônicos, viciados em drogas e álcool e que não possuem mais nenhum vínculo familiar. Eles simplesmente se recusam a aceitar qualquer tipo de tratamento, afirma o diretor de desenvolvimento social da Fundação de Assistência Social (FAS) da Prefeitura de Curitiba, Erotildes Antunes Xavier, 40 anos.
Conforme o último levantamento da FAS, de novembro do ano passado, nas ruas da cidade também vivem cerca de 150 jovens entre 18 e 25 anos, e 118 crianças com menos de 14 anos. Formado em administração de empresas, Xavier diz ser impossível obrigar os indigentes crônicos a receber assistência, mas quer reduzir o número deles e proporcionar ‘‘um pouco mais de qualidade para o resto da vida que eles têm’’.
Duas atitudes da população, conforme Xavier, podem ajudar a forçá-los a procurar ajuda. A primeira seria a de dificultar a vida dos mendigos nas ruas, negando-lhes esmolas. Dar esmola, no entanto, é uma prática comum, que pode ser confirmada em qualquer esquina da cidade. A segunda seria um período de desintoxicação compulsória - presos para impedir o contato com o álcool e as drogas. Xavier afirma ter certeza que, sem as esmolas, os indigentes não passariam necessidade, pois haveria órgãos para alimentá-los. ‘‘A esmola mantém os mendigos nas ruas’’, diz.
Dos 280 indingentes crônicos, 250 são homens e 30 mulheres, segundo dados da FAS. Os números mostram que, do total, 126 estão na rua há mais de seis anos, e 61 entre três e cinco anos. É exatamente devido ao tempo de permanência nas ruas que os mendigos teriam resistência de aceitar tratamento. Isso ocorre, segundo Xavier, porque a vida deles estaria ligada a um ciclo vicioso, no qual se inclui álcool, sono, comida, álcool e assim por diante. ‘‘Qualquer ação convencional, como trabalho ou arrumar a cama do albergue é considerada abominável por eles’’, diz.
O trabalho com os adolescente e jovens, porém, tem dois fatores de difícil superação, segundo ele: as drogas e a ausência de limites das ruas. Enquanto os mengidos crônicos são encarados como ‘‘os pobres coitados’’, os menores são incluídos na lista de futuros marginais. ‘‘É dessa condição que eles caminham para a criminalidade’’, afirma.
Em agosto de 1998, em reportagens da Folha, números da FAS demonstravam que haviam 300 pessoas nas ruas da capital em idade adulta. Entre cianças e adultos, estavam cadastrados 124. Outros 600 menores estariam vivendo em ‘‘situação de rua’’ (mantinham laços familiares, mas sobreviviam nas ruas). Apesar do acirramento da crise social, os dados divulgados em novembro revelam uma diminuição da indigência entre adultos, de 300 para 280, e jovens, de 724 para 468.

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