Ruas de bairro carente escondem almas aflitas Cesar AugustoMaria de Lurdes da Silva: comida precáriaCesar AugustoFrancisca Marques de Lima morou anos sob um barraco de lona e só recentemente conseguiu madeira para construir três cômodos Silvana Leão De Londrina Na Rua dos Médicos, um garoto doente garante a sobrevivência da família com sua aposentadoria por invalidez (benefício da prestação continuada). É Ezaquiel Peçanha, de 14 anos, deficiente físico e mental. Em seu nome, a família recebe todos os meses R$ 136,00. Com este dinheiro, e mais uma cesta básica recebida por outra filha através do Projeto Piá, sete pessoas vivem apertadas num barraco de três cômodos no Jardim União da Vitória 5 (zona sul de Londrina). O nome da rua é uma homenagem aos profissionais da saúde, mas a família está longe de ter uma boa assistência médica. Para conseguir uma consulta, é preciso recorrer ao posto de saúde mais próximo, onde o período de espera pode chegar a duas semanas. ‘‘Há quatro meses pediram para a gente fazer um exame no Ezaquiel. Nós fizemos, mas agora pediram para esperar até o dia 28, quando o médico volta de férias, para só aí marcar a consulta’’, explica a mãe do garoto, Maria de Lurdes Peçanha. Este tipo de problema há muito é enfrentado pela família, que mudou-se para Londrina na busca de tratamento mais adequado para o filho. A miséria, porém, nunca os abandonou. ‘‘No fim do mês a gente passa bastante apuro’’, admite dona Maria de Lurdes, referindo-se aos dias de fome que fazem parte do cotidiano da família. Perto dali, na Rua dos Horticultores, outra Maria de Lurdes, de sobrenome Gomes da Silva, não pode consumir os produtos que vêm da horta. Bem que ela precisava. ‘‘Eu sou diabética, o médico disse que eu preciso comer bastante verdura e fruta, mas se eu gasto o dinheiro com isso, não sobra para o arroz e feijão da família.’’ Maria de Lurdes vive com os três filhos, neto e o marido, aposentado por invalidez, em uma pequena casa. Sobrevivem da aposentadoria e da ajuda dos vicentinos – seguidores de São Vicente de Paulo que auxiliam pessoas carentes. ‘‘Falta tudo para a gente, mas principalmente saúde. Com ela, a gente pode fazer tudo.’’ No mesmo bairro, as contradições continuam. Onde a placa exibe o nome Rua dos Engenheiros, casas simples que jamais foram projetadas. No lote 15 da quadra 60, Francisca Marques de Lima morou anos sob um barraco de lona. Até ganhar um pouco de madeira, que usou para erguer os três cômodos onde mora com o marido. Ela tem placas de platina no braço, resultado de um atropelamento. Ele, problemas de coluna e câncer na próstata. A aposentadoria não foi possível e dona Francisca suspira desanimada: ‘‘Não sei até quando vou aguentar tudo isso.’’