Curitiba - Há pelo menos sete anos Curitiba deixou de ser aquela cidade provinciana, como era comumente chamada. Naquele tempo, uma caminhada pelo calçadão da Rua das Flores chegava a levar até uma hora. A demora não era resultado do movimento na rua. É que era praticamente impossível transpor as seis quadras que fazem parte do calçadão sem parar a cada cem metros para conversar com amigos e conhecidos que, invariavelmente, encontrava-se pelo caminho.
Quem pensa que esse exercício de bate-papo chateava as pessoas, engana-se. Naquele tempo quase ninguém tinha pressa. Quem tinha já se programava para sair mais cedo e não abrir mão do tempo que '' perderia'' no calçadão. Às vezes esses encontros tornavam-se ainda mais prazerosos. Bastava o papo animar para um dos lados propor uma esticadinha para comer um quindim com Wimi na Confeitaria Família ou uma coalhada na Confeitaria Schaffer.
Hoje muita coisa mudou. A população da cidade aumentou. Com isso, o calçadão da Rua XV foi perdendo seu charme. Apesar do movimento maior, qualquer pessoa atravessa as mesmas seis quadras em pouco mais de dez minutos. É que cada vez torna-se mais raro o encontro animado no meio do caminho. E, quando um conhecido passa, a pressa não permite mais do que um aceno ou um ''tudo bem'', sempre no ritmo dos passos, já que poucos têm tempo para parar e conversar.
A exceção, é claro, continua sendo a Boca Maldita. Ali, aposentados, desempregados e uns poucos felizardos que se permitem ''jogar conversa fora'' passam horas lendo jornal, colocando as notícias em dia, para alívio dos engraxates que, assim, ainda conseguem ganhar a vida com os frequentadores do calçadão. Mas a maioria dos curitibanos que, como eu, nasceu e se criou na cidade, sente saudades desse lado bom da Curitiba provinciana. Mais ainda: saudades especiais do sabor da coalhada da Schaffer.

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