''Acho que estou aqui porque nasci pra isso mesmo. Preferia ter uma casa, uma família, estar bem arrumado, indo pra um shopping. São coisas simples pra vocês, mas que pra nós são difíceis de realizar'', declara Lucas, 20 anos, que diz que só conhecer o paradeiro de uma irmã, residente em Apucarana. Seu relato poderia ser emblemático sobre a forma de pensar dos jovens que vivem no terreno, mas as palavras de sua colega, Paula, 25 anos, apontam outra direção.
''Eu sou bem de vida. Passei quatro meses na minha casa, mas há uma semana voltei pra rua. Minha mãe fica pegando no meu pé, quer saber onde eu vou. Gosto de liberdade'', alega a moça, que durante a entrevista trajava roupas novas e trazia os cabelos penteados e arrumados com gel. Marina, 15 anos, é um meio-termo entre a história dos dois amigos.
''Minha família mora bem perto daqui. A essa hora, meu pai está assando um churrasco e minha irmã jogando videogame. Queria estar lá, mas minha mãe diz que só me aceita quando eu largar o vício. Mas eu é que só largo a droga quando voltar pra casa'', afirma. Minutos depois, ela explica que, na verdade, o ''pai'' é um padrasto e a ''mãe'' é uma tia. ''Meus pais de verdade eu não conheci.''
Na ausência de seus parentes de sangue, o grupo diz formar uma família. Dividem drogas e comida, divertem-se jogando bola e baralho. Mas também brigam, como a reportagem pôde testemunhar. Dois garotos tiveram uma discussão, aparentemente por motivo fútil, e logo havia grandes pedras nas mãos de cada um. No final, ficou tudo bem. ''Seu coração disparou agora, hein?'', pergunta Paula à repórter.
Os jovens afirmam que consomem álcool, cola de sapateiro, maconha, crack e, mais raramente, cocaína. Lucas diz que o grupo fica sem comida às vezes, mas é desmentido pelos amigos. ''Passa fome quem quer'', corrigem os demais, garantindo que conseguem dinheiro para tudo apenas pedindo nas ruas e casas. Quando questionados se acham que vão mudar de vida um dia, eles impõem condições. ''Se eu arranjar um emprego, fico sossegado'', ''Se minha mãe me deixar voltar pra casa, eu largo o vício'', são algumas das respostas. (V.N.)

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