Dorico da SilvaAlmoço com as estrelasO reitor Jackson Testa, Lerner e a vice-governadora Emília: prédio leva nome do pai do governadorO governador Jaime Lerner (PFL) inaugurou o Restaurante Universitário (RU) da Universidade Estadual de Londrina (UEL), ontem de manhã, sob protestos e vaias do Diretório Central dos Estudantes (DCE). Mesmo sem o carro de som - que o DCE denuncia ter sido apreendido pela prefeitura do campus - cerca de 200 alunos receberam o governador, a vice-governadora Emília Belinati (PTB) e comitiva com muito barulho.
‘‘Tivemos que enfrentar os seguranças da prefeitura do campus. Queriam tomar os 100 quilos de bananas que o DCE comprou para distribuir durante a manifestação’’, informou Henrique Gambaro Vieira, coordenador do DCE.
Os estudantes protestaram contra a falta de ‘‘transparência’’ na abertura do restaurante e acusaram a reitoria de estar ‘‘capitalizando’’ a inauguração do RU para fins políticos. ‘‘O RU não é palanque, o RU é dos estudantes’’, gritavam os estudantes, enquanto Lerner e comitiva almoçavam em um dos dois refeitórios. ‘‘Não, não, não. Não à reeleição.’’ ‘‘Você almoça bacana e para a gente só banana.’’ ‘‘Uma pergunta, uma questão: qual é o preço da refeição?’’ Durante todo o almoço, que durou cerca de 15 minutos, os estudantes gritavam essas e outras frases nas janelas do RU. No dia anterior, também houve protesto com o mesmo objetivo.
Dorico da SilvaAssistindo de janelaEstudantes e dirigentes do DCE acompanharam almoço das autoridades: críticas ao uso político do evento
Do lado de dentro, só a comitiva do governador, professores, assessores e imprensa. O cardápio foi arroz, feijão, carne de panela, salada e farofa. Lerner e Emília elogiaram o menu, mas não comeram tudo.
Somente depois da saída de Lerner - pela cozinha e não pela entrada principal - o almoço foi liberado para os estudantes. Na chegada, o governador também entrou pela cozinha, o que evitou o encontro direto com os alunos. Mas não adiantou. Quando o cerimonial anunciou os nomes para compor o palanque - armado em frente ao prédio do RU -, os alunos começaram a gritaria e os discursos previstos pelas autoridades foram cancelados. O governador só descerrou a placa de inauguração e, em seguida, visitou a cozinha, abriu as panelas, posou para a lente dos fotógrafos e para as câmeras de TV. Ele serviu-se no bandejão e almoçou. A UEL homenageou o governador usando o nome do pai dele para ‘batizar’ o restaurante - Félix Lerner.
Apesar do clima de constrangimento, Lerner considerou ‘‘normal’’ o protesto. ‘‘Eu convivo com ambiente universitário desde o tempo em que eu era estudante. Graças a Deus é assim: existe o questionamento. O que seria de uma universidade se não houvesse a contestação? Registro com alegria qualquer manifestação que aconteça na Universidade. Seja a favor ou contra.’’
Em seguida, Lerner completou: ‘‘É a única manifestação hoje aqui. Ninguém está falando de salário de professor, que é o mais alto do País, ningúem está falando da necessidade do RU, como havia tempos atrás, e tantas outras necessidades que cumprimos uma a uma. Que maravilha que o preço baixo da comida é a única reivindicação. Fico felicíssimo. Para mim é uma glória’’. Ele não comentou, porém, as críticas contra a reeleição para o governo estadual.
A manifestação contra Lerner e também contra o reitor licenciado Jackson Proença Testa fez parte da campanha ‘‘Só pago R$ 0,75’’, em favor de um preço baixo para a refeição servida no RU. Até ontem, a reitoria ainda não tinha definido o preço da refeição que será servida no RU a partir de segunda-feira. Segundo Testa, o Conselho Administrativo iria se reunir ontem para elaborar a planilha e definir o valor da refeição.
Testa adotou o mesmo discurso de Lerner ao comentar o protesto estudantil. ‘‘Fico muito feliz que os alunos estejam reivindicando só o preço da comida, enquanto grande parte das unversidades federais estão fechadas e o Paraná é uma exceção porque paga bons salários nas universidades estaduais e regulamentou repasse de verbas para ciência e tecnologia.’’ Para Testa, o DCE está protestando contra a cobrança de um preço ainda não definido.
O reitor aproveitou, porém, para provocar os manifestantes. ‘‘Quem sabe eles (os alunos) não sacrificam uma cervejinha, o tanque de gasolina de suas F-1000 e possam pagar a refeição a um preço justo para ajudar os demais que realmente necessitam.’’
Cerca de 20 faixas de agradecimento a Lerner, a Emília e à reitoria foram espalhadas pelo campus. Houve festa, com queima de fogos e bexigas, mas o governador tinha acabado de deixar o campus quando os primeiros fogos começaram a estourar.

mockup