Curitiba - A estilista Adriana Salles define a Três Pontinhos... como ''muito mais que uma roupa e muito mais que uma marca''. Isso porque, além de uma coleção de roupas, as peças criadas por ela auxiliam na educação das crianças com deficiência visual e fazem uma referência ao sistema braile.
São blusas, saias e calças produzidas com materiais reaproveitados e que estimulam atividades educativas nas áreas de português, geografia, educação física, meio ambiente e ainda promovem a inclusão. As roupas possuem elementos em alto relevo, ímãs e texturas, que possibilitam, por meio das brincadeiras, que as crianças aprendam mais sobre o alfabeto, separação do lixo, escovação dos dentes e como amarrar o sapato. ''Como as crianças também têm muita dificuldade em identificar que parte são as costas ou a frente das roupas e qual o lado direito ou esquerdo, cada peça tem bordada uma simbologia que diferencia a cor e o lado da roupa'', explica a estilista.
A coleção foi criada com base nas crianças atendidas pelo Instituto Paranaense de Cegos (IPC). Tudo foi pensado de forma a se adaptar à realidade dos pequenos, que em muitos casos são de famílias de baixa renda e não têm condições de comprar muitas roupas. ''As peças são de tecidos que duram mais, não amassam muito e também são mais escuras, para que não sujem com facilidade. Elas também possibilitam o ajuste do tamanho, e podem ser usadas conforme a criança vai crescendo ou ser repassadas para os irmãos mais novos'', diz Adriana.
A estilista lembra ainda que as meninas são muito vaidosas e, mesmo sem enxergar, se preocupam com a cor e estampas das peças. ''Elas gostam de escolher o que vão vestir e não discutem mais sobre moda porque faltam materiais em braile sobre o assunto'', afirma.
A simpática Vitória Gisele de Ramos, 9 anos, foi uma das modelos da coleção. ''Eu adoro desfilar e adoro ser modelo. Com as roupas aprendi a abotoar as calças, brinquei de escovar os dentes e a trocar as letras do alfabeto. É muito importante'', afirma.
A marca foi apresentada por Adriana no final do ano passado, no projeto de conclusão de curso técnico em Estilismo. As peças foram produzidas com doações de tecidos e costuradas pela própria estilista e sua mãe. Agora, o objetivo é dar continuidade ao projeto em parceria com o IPC. As roupas serão comercializadas na sede do instituto e os recursos adquiridos com as vendas serão destinados à própria organização. ''Precisamos de doações e de trabalho voluntário. Conseguimos parceria com empresas que vão doar tecidos e retalhos, mas não temos o equipamento para a produção, como máquinas de costura, que são caras'', afirma.
Para o presidente do IPC, Manuel Cardoso dos Passos, a parceria contribui para o aprendizado das crianças e também ajuda a divulgar o trabalho da organização. ''É ótimo, as crianças gostaram muito e as roupas ajudam a aprender. É bom também porque vai mostrar para a sociedade o trabalho do instituto, que tem 69 anos e antes era visto como um depósito. Nós precisamos de doações da comunidade, pois as atividades aqui são gratuitas'', explica.
Ainda sem muitas parcerias, Adriana acredita, porém, que já teve um retorno positivo com a iniciativa. ''Achei que ninguém ia se interessar por um projeto social. Me surpreendi porque ele foi bem aceito por empresários. Estou muito feliz porque consegui incentivar que outras pessoas também façam o mesmo por um público que ninguém olha'', finaliza.

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