Roubando para levar vantagem
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quarta-feira, 07 de março de 2007
Guilherme Borges<BR>Reportagem Local 
O perfil das pessoas que furtam produtos nos supermercados já não é mais o mesmo. A Polícia Militar e comerciantes têm percebido que muitas pessoas furtam produtos pelos quais poderiam pagar. Às vezes são pessoas bem arrumadas, de quem nunca ninguém desconfiaria. As características das pessoas que praticam esse tipo de furto mudaram e muitos fazem na frente dos filhos, e isso é que me assusta, diz o proprietário de um supermercado de Cambé, Luiz Cláudio Depieri Vicente.
O relações públicas do 5º Batalhão de Polícia Militar, em Londrina, tenente Ricardo Eguedis, explica que pessoas de classe média também cometem este tipo de infração. Trocam as embalagens de creme mais barato com a de um mais caro. Furtam bebida alcóolica. Trocam pastas de dentes. Apesar de não termos dados concretos, percebemos que em geral são mais produtos de higiene que elas levam, informou. Ele ressalta que este tipo de delito, apesar de parecer de menor gravidade, é passível de punição. Se a pessoa é pega em flagrante pode ir e ficar presa.
Para a gerente de um outro estabelecimento, na Zona Oeste de Londrina, que preferiu não se identificar, além de estarem bem vestidas, os infratores são pessoas que estão sempre no mercado. Elas moram por perto e a gente sabe que têm condições de pagar o produto. Uma senhora de idade, por exemplo, sempre vinha aqui e pegava uma bebida láctea e depois escondia a embalagem vazia. A gente teve que fazer um esquema de contagem de estoque para identificar o furto e depois quem era, relatou.
Vicente também coleciona histórias. Um senhor estava trocando os ovos de uma embalagem de R$ 2,20 para a de R$ 1,80. Por causa de R$ 0,40 será que vale o risco? Outra vez, uma senhora levou o filho para experimentar chinelo e deixou o par velho no lugar do embalado. Isso acontecia direto, até que deixei de vender chinelo de criança. Como eu vou controlar o calçado de toda criança que entrar aqui?
Apesar do prejuízo que acumula mensalmente e que ele não quis revelar , o comerciante afirmou estar menos preocupado com o prejuízo, mais com a condição humana. O dinheiro não vale tanto. Faz falta, mas são coisas pequenas. A questão é pensar: e essa criança, como vai crescer, vendo os pais fazendo isto? As pessoas nem se envergonham mais. Será que vai chegar o dia em que teremos vergonha de ser honestos?
A psicóloga Elsie Pereira da Silva acredita que esta inversão de valores já acontece. Hoje, quem leva vantagem sobre o outro se valoriza. É um efeito cascata. Vem das figuras públicas até chegar à família, afirmou. Ela explicou que, ao ver homens e mulheres públicos se beneficiando com irregularidades, sem que sejam devidamente punidos, cria-se um pensamento comum na sociedade: se ele fez e não aconteceu nada, comigo também não vai.
Outro ponto é que as pessoas não sabem mais lidar com a frustração. Não conseguem aceitar que não podem comprar alguma coisa ou ainda que precisam esperar até guardar dinheiro para fazer isto. É o imediatismo que também vivemos, acrescenta. Ela defende que, nos casos dos pais que fazem isto na frente dos filhos, esse jovem vai se tornar um adulto sem modelos de conduta.
A mudança, ela acredita, acontecerá quando estes valores forem resgatados e que isto só poderá ser feito através da mudança da figura pública, com o apoio da imprensa, das escolas, até que se atinja a família. É uma trabalho de formiga, mas que precisa ser feito, principalmente, entre pais e filhos.


