Rótulos são expressão de uma ideologia
Rótulos são expressão de uma ideologia
Grupos se diferenciam na postura e no modo de vestir, mas buscam, fundamentalmente, encontrar sua identidade
Guilherme Pupo
Mauro FrassonEstiloPatricinhas adotam a cultura do shopping center e, como outras tribos, tentam obter, também pelo consumo, sua felicidade idealizadaClubbers, skinheads, mauricinhos, patricinhas, punks, entre outros... Os rótulos e suas variações são infinitas mas, na origem, o fenômeno das tribos e gangues de adolescentes é o mesmo. Eles se reúnem em bandos, contrariam (em maior ou menor escala) as idéias dos pais e adotam um estilo para expressar suas ideologias.
As diferenças estão nas roupas (das camisas engomadas às roupas largas e rasgadas), acessórios (armados de telefone celular ou correntes e piercings) e habitats (dos becos escuros e bares underground aos shopping centers). A linguagem recheada de gírias (como as famosas tipo assim, tá ligado? e massa) completa o perfil de cada tribo.
O adolescente precisa colocar os pais em xeque, para decidir se vai adotar tudo que aprendeu na família ou se tem coisas no mundo que também são boas para ele. É aí que entra a força do grupo. Fora de casa, ele precisa ter seus semelhantes e conseguir forças para o seu processo de individuação - seja usando o cabelo verde, as calças largas ou deixando de tomar banho, explica a pedagoga Isabel Parolin, que trabalha há dez anos com grupos de adolescentes em escolas.
Segundo ela, a natureza do grupo depende de como foi a convivência do adolescente com sua família, desde a infância. Se o indivíduo teve um bom espaço para se manifestar em casa e na escola, provavelmente vai procurar um grupo com poucas diferenças em relação à cabeça dos pais, observa.
Para a pedagoga, a violência é manifestada geralmente em adolescentes que não tiveram afeto e carinho suficientes na infância. Além disso, hoje a tendência à agressividade é estimulada por fatores como a ausência dos pais em casa, a prisão das crianças em apartamentos minúsculos e o próprio contato com a violência - a real, nas ruas, e a de ficção, nos filmes e na TV, avalia Isabel Parolin.
Segundo ela, os pais de adolescentes devem perceber que essa fase é um experimento dos filhos, mas sem esquecer de dar limites. Sempre é uma fase em que o adolescente faz pose para ser notado. Depois a pessoa amadurece e percebe que a diferença está na personalidade e não precisa mais chamar tanto a atenção, explica.
Piercings e tatuagens - Para o psicólogo belga Christian Mormont, algumas manifestações dos adolescentes, como as tatuagens ou piercings, são sinais de falta de identidade. As pessoas que fazem uma tatuagem parecem ter um senso de identidade extremamente fraco. Elas precisam de um sinal para serem notadas. É como se elas fossem como uma porta de vidro, invisíveis, e colocassem esses sinais como aviso para que as pessoas evitem se chocar com ela, comenta.
Mormont é doutor em psicologia pela Universidade de Liége e há 25 anos pesquisa a utilização de tatuagens. Ele esteve em Curitiba na semana passada, convidado pela Universidade Tuiuti para fazer uma conferência sobre os significados psicológicos da tatuagem.
Há algumas décadas, a tatuagem era associada a grupos marginalizados como toxicômanos e ladrões (ou ainda a profissionais como marinheiros e soldados). Segundo o psicólogo, hoje a tatuagem estaria se popularizando graças a atores de cinema, cantores ou outros ídolos da cultura ocidental.
Ele lembra também que essas marcas no corpo podem ter a conotação de demarcar poder. Um criador de gado marca seu rebanho. Os nazistas marcaram os judeus que iam para os campos de concentração e extermínio, observa.





