Roteiro com cheiro e sabor de tradição
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domingo, 07 de maio de 2006
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
Resultado da mistura de raças que traçou o seu perfil, Londrina é uma cidade que abriga uma diversidade de cheiros e sabores. Característica que se soma à outra: a de manter, há décadas, pontos gastronômicos que não se rendem a modismos, e mantêm desde que foram criados a mesma forma de atendimento, o mesmo cardápio, a mesma qualidade. Na área central, o roteiro inclui de pastelarias a comida árabe, passando por restaurantes à la carte e cafeteria que não abre mão do coador de pano.
No número 206 da Rua Mato Grosso, um libanês resolveu, no ano de 1965, montar uma lanchonete, com apenas um pequeno balcão, para oferecer aos londrinenses o sabor de seus quibes e esfirras. O ponto não era dos mais nobres, mas não demorou muito para desembargadores, juízes e políticos formarem uma freguesia cativa. Com o tempo a lanchonete cresceu, e mais tarde, os cômodos que antes abrigavam a família do libanês Michel Dakkach se transformaram no Restaurante Kiberama.
Nos últimos 41 anos, quase nada mudou no cardápio. ''Até hoje minha mãe mora nos fundos do restaurante e é ela quem coordena a cozinha'', conta Carlos Elias Dakkache, responsável pelo estabelecimento, junto com o irmão Pedro Carlos Dakkache. A decoração e o mobiliário do restaurante também pouco mudaram ao longo dos anos. A mesma tapeçaria enfeitando a parede dos fundos, os mesmos lustres, as mesmas banquetas giratórias, que fazem a alegria da criançada. ''No dia em que resolvemos tirar um antigo quadro de isopor da parede, um cliente que estava sentado ao balcão chorou, dizendo que estávamos mexendo na história da vida dele'', relembra Carlos.
Alguns segredos da famosa esfirra não são revelados pelos donos, mas eles dão uma dica: ''A maioria dos nossos fornecedores não mudou neste tempo todo. Compramos a carne de carneiro, a farinha e o queijo branco das mesmas pessoas.'' Nem os funcionários mudam com frequência no restaurante. ''Temos várias cozinheiras que se aposentaram trabalhando conosco'', diz Carlos.
Situação parecida é vivida no Restaurante Rodeio, na esquina da Alameda Miguel Blasi com Rua Professor João Cândido. É ali que trabalha o garçom mais antigo da cidade, Nelson Faneco. ''Temos clientes fiéis e também funcionários que estão conosco há muito tempo'', afirma o gerente Arlindo Dessunti, que assumiu a direção do restaurante após a morte do sogro, no início de 1980. Desde 1966, quando foi aberto, o Rodeio já serviu algumas centenas de quilos de filés, peixes, massas e molhos.
Fechar as portas, só mesmo no dia 1º de janeiro. ''Abrimos de segunda a segunda e servimos refeições a qualquer hora, sempre com o cardápio completo disponível.''
Entre os fiéis frequentadores estão os amigos agricultores Luiz Barbieri, Hermenegildo Teixeira, Lino Max, Pedro Favoretto e Daniel Grade, que há cerca de 20 anos se reúnem nos finais de tarde em uma das mesas. Ali falam de tudo, e tornam mais leve o dia-a-dia. ''Isto aqui me tira a tristeza'', define Max. Barbieri afirma que se não vai ao happy hour no restaurante, ''parece que não está bom''. Teixeira, por sua vez, compara o local ao famoso Rick's Bar, do filme Casablanca: ''Aqui encontramos desde políticos importantes até o vendedor de bilhete''. Para Favoretto, uma das vantagens do local é que ali ''ninguém é melhor que ninguém''.
Outro grupo de amigos que escolheu um único lugar para os bate-papos diários é o formado por Euzébio Feijó de Oliveira, juiz aposentado; Miguel Bulgacov, comerciante e construtor; José Carlos Silveira Arruda, bancário aposentado; e Décio Simoni, cartorário aposentado. As reuniões dos quatro, porém, acontecem no meio da tarde, há quase 40 anos, no Café Ipanema, localizado no Calçadão, esquina com Avenida São Paulo.
O local mantém praticamente as mesmas características desde que abriu, em 1967. O café ainda é moído diariamente e a bebida é feita em um grande coador de pano, quase sempre direto na xícara do cliente. ''Fazemos um novo café no máximo a cada 15 minutos'', explica José Marcos da Rosa Vicente, filho de José da Rosa Vicente, que montou a pequena lanchonete em uma época que o burburinho de pessoas era intenso na área por conta da Rodoviária, então a poucos metros dali.
''A principal mudança, nos últimos anos, foi a suspensão da venda de bebida alcóolica. Temos latinha de cerveja, mas cobramos caro (R$ 2,30), porque não temos interesse em vender. Aqui é um lugar para famílias que estão no Centro e querem tomar um lanche rápido, para trabalhadores das redondezas e para quem procura um lugar para fechar um negócio'', afirma Vicente. Ele cresceu em meio ao movimento de pessoas e se deliciando com o cheiro constante do café. ''Era uma época em que o Centro da cidade era mais bem cuidado'', relembra.


