Rota invertida
Valmir Denardin
De Foz do Iguaçu
O roubo de carros na fronteira entre Brasil e Paraguai está se transformando em uma via de mão dupla. Antes acostumadas a roubar veículos no Brasil e vendê-los no país vizinho, agora as quadrilhas já começam a adotar o processo inverso.
Apenas no mês de outubro, a Polícia Civil de Foz do Iguaçu recuperou três veículos paraguaios que estavam na cidade, depois de terem sido furtados em Assunção (capital do país) ou na região de fronteira, principalmente em Ciudad del Este. Esse número representa 27,2% do total de 11 veículos recuperados no período.
Segundo a Folha apurou, as quadrilhas escolheram o Brasil como rota de passagem, mas os carros roubados no Paraguai têm como destino um terceiro país: a Bolívia. A preferência é por caminhonetes de luxo a diesel, moeda-forte na troca por cocaína.
As caminhonetes de paraguaios recuperadas pela polícia de Foz do Iguaçu em outubro são duas Mitsubishi Land Cruiser e uma Ford Explorer. O valor de mercado desses veículos pode chegar a US$ 90 mil (cerca de R$ 180 mil). Fornecedores de cocaína bolivianos, no entanto, pagam em droga apenas 11% desse valor cerca de US$ 10 mil (R$ 20 mil).
Até agora, a polícia prendeu uma quadrilha especializada nessa modalidade de crime. O grupo era familiar e atuava tanto no roubo como no transporte dos veículos até a Bolívia. No dia 31 de outubro, foram presos em Foz do Iguaçu o pedreiro João Carlos Prado da Silva; sua mulher, Valdicléia da Silva; e a adolescente S.L., 17 anos.
Três dias antes, havia sido preso em Ponta Porã (MS), já no caminho para a Bolívia, Joceli Prado da Silva, irmão de João Carlos. Os três maiores de idade estão presos na Cadeia de Foz do Iguaçu. A adolescente está detida na Delegacia do Menor Infrator. Dois membros da quadrilha ainda estão foragidos. O grupo é acusado de roubar uma caminhonete Land Cruiser registrada em Hernandarias (cidade paraguaia na fronteira com Foz), pertencente a um comerciante libanês.
Depois de roubados no Paraguai, os veículos entram no Brasil geralmente pela Ponte da Amizade (sobre o Rio Paraná, que liga Foz do Iguaçu a Ciudad del Este). Em território brasileiro, eles cruzam a faixa extremo-oeste do Paraná na margem do Lago de Itaipu e o oeste do Mato Grosso do Sul, até ingressar na Bolívia.
As quadrilhas descobriram que o Paraguai, além de ser um ótimo receptador de carros roubados, é um excelente lugar para se roubar veículos. Vários fatores contribuem para isso. O principal deles é que o Paraguai não possui um registro nacional e unificado de veículos. Com isso, fica muito difícil localizar um carro roubado no país.
A lei paraguaia também facilita o roubo. Para se transferir a propriedade de um carro é necessário apenas que os supostos comprador e vendedor compareçam a um cartório e registrem um contrato. Não há checagem dos documentos e antecedentes de nenhuma das pessoas e nem do veículo envolvido no negócio.
A essas duas facilidades, se soma a histórica corrupção que toma conta da polícia, dos órgãos administrativos e até do Judiciário paraguaios. No ranking dos 99 países mais corruptos do mundo, elaborado pela organização International Transparency, o Paraguai apareceu este ano em nono lugar. O Brasil é o 45º colocado na mesma lista.
Depois de cruzar o Rio Paraná, as quadrilhas também encontram facilidades. À medida que se afastam da fronteira, é cada vez mais difícil que a Polícia Rodoviária brasileira consiga identificar um carro roubado no país vizinho.
Os policiais não recebem treinamento específico para a checagem de documentos estrangeiros. Além disso, há o problema do idioma e das diferentes convenções adotadas em cada país. Mesmo que conseguisse suplantar essas barreiras, um policial brasileiro não conseguiria checar as informações que aparecem em documentos paraguaios.
Não existe um número de telefone ou um sistema informatizado para se verificar se os dados são verdadeiros, o que torna a checagem tecnicamente impossível, admite Marcos Mallmann, chefe do Setor de Operações da Polícia Rodoviária Federal em Foz do Iguaçu.
O Mercosul tornou o trânsito de veículos estrangeiros ainda mais livre. O Tratado de Assunção, que em 1995 criou o bloco econômico formado por Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai, extingiu a exigência da Admissão Temporária. Esse documento, com validade de 90 dias, era expedido pela Receita Federal no momento em que o carro estrangeiro entrava no Brasil. Hoje, são necessários apenas os documentos exigidos no país de origem.
Na opinião do delgado-adjunto da 6ª Subdivisão Policial (SDP) de Foz do Iguaçu, Luiz Gilmar da Silva, todas essas deficiências tornam a região de Foz do Iguaçu vulnerável à passagem de carros paraguaios rumo à Bolívia. Apesar disso, Silva não encara ainda essa nova rota como uma tendência. Mas é um indicativo de que as coisas estão mudando.
Hoje as quadrilhas descobriram que é mais fácil tirar um carro do Paraguai do que colocar, compara Lúcio Antônio Marques, membro da diretoria da federação das seguradoras brasileiras, a Fenaseg.
Na última quarta-feira, a Folha procurou o chefe da Polícia Nacional paraguaia na faixa de fronteira com o Brasil, Miguel Nuñez Niz. Segundo funcionários da sede do órgão, em Ciudad del Este, Niz participava de um curso em Assunção e ninguém mais poderia dar informações sobre o assunto.Quadrilhas encontram facilidades para roubar carros no Paraguai, cruzar o Brasil e trocá-los por cocaína na Bolívia
FACILIDADECarro importado com placas paraguaias passa pela aduana em Ciudad del Este, a caminho da Ponte da Amizade: principal porta de entrada dos carros roubados no ParaguaiDocumento de veículo paraguaio: país não tem registro nacional unificadoO delegado-adjunto da 6ª Subdivisão Policial de Foz do Iguaçu, Luiz Gilmar da Silva





