Rosalina Batista foi da humilhação para a liderança
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sábado, 01 de março de 1997
Edmara Michetti 
Rosalina Batista: Eu tinha que lutar para ninguém mais passar pelo que eu passei Rosalina Batista tem vários motivos para festejar o Dia Internacional da Mulher, 8 de março. Um caso de discriminação fez dessa ex-doméstica a responsável pela mudança na vida de muitas mulheres em Londrina. Hoje posso agradecer a minha antiga patroa pelo que ela me fez, diz Rosalina, presidente do Clube das Mulheres Batalhadoras do Jardim Franciscato.
A história de Rosalina, hoje com 48 anos, começou a tomar novo rumo no final de 1990, quando ela perdeu o emprego de doméstica no segundo dia de trabalho. Motivo: a patroa rica, como ela diz, não aceitou que Rosalina continuasse trabalhando na casa ao saber que ela morava no Franciscato - bairro pobre da zona sul, que carregava o estigma da violência. No caminho até o ônibus passou muita coisa pela minha cabeça. O que é que tinha eu morar no Franciscato? Foi o golpe mais duro que eu levei e eu queria mudar a imagem do bairro, conta. Meus três filhos eram pequenos, meu marido estava doente. Eu tinha que sustentar a casa.
Sem pestanejar, Rosalina voltou ao serviço de bóia-fria, por seis meses. O Clube das Mulheres Batalhadoras já funcionava há um ano, prestando assistência social às mulheres do bairro. Rosalina entrou no grupo com um objetivo particular. Comecei a participar para resgatar a minha cidadania e a das outras mulheres. O trabalho começou com lutas por esgoto e asfalto no bairro, conta.
Eu tinha que lutar para ninguém mais passar pela humilhação que eu passei. Seis anos de batalha à frente do Clube, e Rosalina atingiu a meta. Hoje o Clube é referência. Muita gente procura as mulheres daqui para oferecer trabalho. Rosalina calcula que mais de 400 mulheres passaram pela entidade, que dá cursos profissionalizantes e produz artesanato e comida para vender. Hoje o grupo tem 90 mulheres entre o Clube e a Oficina de Tecelãs, na fazenda Refúgio.
A partir do Clube do Franciscato outras 14 organizações de mulheres se formaram nos bairros da zona sul. Na Cidade, já são 36 organizações em prol da mulher. O trabalho deu tão certo que o Clube do Franciscato começa a ser procurado pelos homens. Eles viram que as mulheres estão empregadas, com salário e nos procuram para fazer cursos.
O clube defende os laços familiares: Não lutamos para separar a mulher do marido. Mas para ter respeito não podemos ficar de cabeça baixa aceitando tudo, orienta Rosalina. Já conquistamos muito, mas não temos a cidadania completa. Eu vejo que não dá para desistir de gritar, de lutar.
E como atingir a cidadania completa? A chefe da Coordenadoria Especial da Mulher, Cleide Cordeiro Camargo, pretende resgatar a auto-estima da mulher em Londrina. Se não desenvolvermos um trabalho de conscientização, a CEM não vai deixar nunca de exercer uma função curativa.
Com isso, a idéia da coordenadora é promover o acordar. Cleide afirma que as pessoas não sabem onde buscar respostas. É aí que entram as associações e grupos de bairros. Por isso a chefe da CEM acredita que o incentivo à formação de lideranças é o melhor caminho para o sucesso dos trabalhos da Coordenadoria. A zona sul tem muito a ensinar.
A agregação familiar é outro ponto que Cleide defende para a recuperação da auto-estima feminina. Se o marido não valoriza a mulher, ela também se desvaloriza. Por isso, a intenção é trabalhar também com o homem, através de palestras. Queremos uma harmonia de forças, não estamos disputando o lugar dos homens.
Na segunda-feira, começa a 5ª Semana Municipal da Mulher, organizada pela CEM. E Rosalina Batista, das Mulheres Batalhadoras, tem mais um motivo para comemorar: estará voltando à escola. Depois de se alfabetizar pelo extinto Mobral, aos 35 anos, para conhecer os números antes de entrar em um curso de corte e costura, ela vai continuar os estudos através do Projeto de Educação do Assalariado Rural Temporário (Peart), correspondente à 2ª série. Para a próxima etapa, Rosalina já pensa em um curso supletivo e, quem sabe, uma faculdade. Essa é mais uma batalha que quero vencer.


