Ao contrário do que muitos pensam, o ronco não está ligado exclusivamente ao sono profundo. Ele pode ocorrer em qualquer fase do sono e acometer pessoas de todas as idades. Por vezes, afeta a vida conjugal e limita a convivência social, atrapalha ou impede viagens e pode gerar situações de constrangimento ou inadequações. De acordo com o diretor da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia (ABO), Fábio Lorenzetti, estudos brasileiros e da literatura em geral apontam que de 25% a 60% de algumas populações têm queixas de ronco.
O otorrinolaringologista de Londrina Daniel Yendo Inada, que atua na área de Medicina do Sono, define o ronco como o resultado da vibração do trajeto do ar na faringe durante a respiração. E alerta que é de ''suma importância'' diagnosticar corretamente se o paciente tem ronco primário ou se há apneia associada.
Diversos fatores estão envolvidos e se correlacionam na potencialização ou origem dessas patologias, como álcool, medicamentos relaxantes musculares ou para induzir o sono e obesidade. Entre os fatores anatômicos estão obstrução nasal, desvios septais e hipertrofia (aumento) das amígdalas. Envelhecimento e, principalmente, obesidade, têm um papel importante para o ronco e a apneia. ''Qualquer fator que cause relaxamento da musculatura de faringe ou estreitamento do trajeto do ar durante a respiração também pode contribuir'', esclarece Inada.
Nas crianças, as causas mais comuns dessas patologias são o aumento de amígdala e adenóide. Já nos adultos há aumento da incidência com a progressão da idade pela alteração neuromuscular da faringe.
Conforme o diretor da ABO, a prevalência, tanto de ronco como de apneia, é maior na faixa dos 40 anos, em homens e em pessoas obesas. ''Mas todas as idades são acometidas, o que muda são as causas'', reitera. Segundo Lorenzetti, a apneia obstrutiva do sono, que é a mais relacionada com o ronco, acontece quando há um colapso da via aérea superior (parada respiratória), geralmente na região da faringe, quando a pessoa está dormindo. ''É muito comum encontrar pessoas que chegam ao consultório com queixa de ronco e quando fazemos uma avaliação detalhada identificamos a apneia'', afirma. Ele acrescenta que estudo recente do Instituto do Sono, de São Paulo, aponta prevalência de quase 33% de apneia do sono na população investigada.
De acordo com os otorrinos, normalmente, os pacientes com apneia apresentam roncos. Porém, o que ronca não necessariamente apresenta apneia. ''O ronco pode ser considerado um marcador para a presença de apneia, mas somente a polissonografia (exame realizado para detectar as anormalidades do sono) é capaz de diagnosticar corretamente se ele é um sintoma isolado ou se está associado à apneia'', explica Inada.
Tratamento
O tratamento de ronco e apneia pode ser clínico ou cirúrgico. Entre as possibilidades clínicas estão higiene do sono, que inclui perda de peso e atividade física regular; o paciente deve evitar sedativos, consumo de bebida alcoólica e tabagismo e dormir de barriga para cima. Aparelhos intraorais e aparelhos de pressão aérea positiva (CPAP) também são opções de tratamento.
As cirurgias, por sua vez, têm o objetivo de corrigir áreas de estreitamento da via aérea. Há ainda diversos novos tratamentos para ronco e apneia em estudo, como uso de substâncias esclerosantes para o palato e exercícios para tonificar a faringe. Os especialistas ressaltam, no entanto, que o tratamento deve ser individualizado, a partir de umaa avaliação criteriosa do médico.
A falta de tratamento pode causar várias complicações, principalmente relacionadas aos quadros da síndrome da apneia obstrutiva do sono. Inada reitera que a apneia eleva o risco de eventos cardiovasculares como arritmias, infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e hipertensão arterial de difícil controle. Sonolência diurna, dificuldade de memória e concentração estão entre os inúmeros sintomas que pioram a qualidade de vida.

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