Paulo Pegoraro
De Cascavel
Uma nota do arcebispo de Cascavel, dom Lúcio Baumgaernter, que será lida neste domingo nas missas em todas as paróquias da cidade, informará à comunidade católica a existência de ‘‘dificuldades financeiras acumuladas além dos limites canônicos’’ e pedirá a ‘‘participação efetiva de todos’’ para a superação dos problemas.
A nota não dá detalhes, mas reconhece publicamente problemas gerados a partir de um grande descontrole financeiro ocorrido em uma das principais paróquias de Cascavel, a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no Bairro Neva (região central).
O assunto já era de domínio público e a falta de um pronunciamento das autoridades eclesiais motivou especulações sobre um ‘‘escândalo financeiro’’, decorrente de dívidas acumuladas pela paróquia e empréstimos feitos com agiotas, sobre os quais incidem juros que elevariam o ‘‘rombo’’ a mais de R$ 600 mil.
As especulações indicam também que teria sido usado dinheiro arrecadado na comunidade para financiar a campanha de um candidato a deputado federal apoiado pela Igreja na última eleição - Renato Silva (PSDB), que é sócio da arquidiocese em uma emissora de rádio.
A Folha tentou ontem e anteontem entrevista com D. Lúcio Baumgaertner, mas ele disse que tudo o que poderia declarar constaria da nota que enviaria ao Jornal - o que ocorreu ontem à tarde. O documento informa que as dificuldades decorrem do ‘‘envolvimento econômico do pároco da paróquia’’, e atingiram ‘‘limite’’ além do conhecimento do arcebispo.
Como o caso se enquadra no ‘‘Direito Canônico’’ - a legislação própria do clero -, Dom Lúcio fez comunicação formal à Nunciatura Apostólica e à Regional Sul da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, além de ter constituído comissão para apurar os fatos.
O padre Sandro Cortese, 35 anos, há oito na paróquia do Bairro Neva, relutou, mas acabou aceitando falar sobre o assunto. Ele disse que as dívidas são ‘‘projetadas’’ para R$ 600 mil até o final do ano por causa dos juros e que se originaram de custos da estrutura da paróquia e de outras, da Pastoral da Comunicação, na qual atuava, ‘‘fundo’’ para ações da arquidiocese, e custos de uma repetidora da Rede Vida de Televisão e de programas religiosos em uma emissora de televisão local. Uma fonte disse à Folha que as dívidas resultam em juros de aproximadamente R$ 25 mil mensais e que o total devido chegaria a R$ 900 mil, o que é negado por Cortese.
O padre admite que pegou dinheiro com paroquianos para cobrir dívidas, mas nega que tenha ‘‘caído na mão de agiotas’’ e que o dinheiro tenha sido usado na campanha eleitoral.
Ele afirma que houve ‘‘um erro’’ na opção feita por um candidato, e que isso ‘‘dividiu muito a comunidade’’. Mas assegura que outros padres e a arquidiocese tiveram conhecimento prévio da opção. Cortese acrescenta que não obteve nenhum benefício pessoal no manuseio de recursos financeiros e admite que, ‘‘por inexperiência’’, incorreu em ‘‘improbidade administrativa’’.
O padre diz que pedirá ‘‘licença’’ da paróquia, mas uma fonte da arquidiocese informou que ele será afastado, permanecendo porém no clero. Além de uma comissão que pede a colaboração de fiéis com pequenas quantias para pagar as contas, o próprio arcebispo está recorrendo a pessoas de maior poder econômico para arrecadar dinheiro. Católicos próximos do arcebispo contam que ele está abalado com o caso.Dívida de uma das maiores paróquias da Arquidiocese de Cascavel chegaria a R$ 600 mil; dinheiro teria financiado eleição
FatoNota do arcebispo D. Lúcio Baumgaertner sobre o assunto será lida nas missas de domingoVersãoO padre Sandro Cortese explicou que a dívida é decorrente de custos da paróquia

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