A 15ª Romaria da Terra do Paraná reuniu ontem em Curitiba cerca de 15 mil participantes vindos de todo o Estado. O número foi a metade do previsto. Segundo o coordenador-geral do evento e secretário executivo da Comissão Pastoral da Terra, Jelson Oliveira, o encontro que ocorre anualmente nas cidades do interior só não foi maior pelo receio dos agricultores em relação às medidas repressivas do governo estadual. Ele também se queixou do policiamento rodoviário que interceptou ‘‘a maioria’’ das caravanas nas estradas, obrigando os romeiros a saírem dos ônibus para revistas.
‘‘Ninguém trouxe foice. Teve caravana que foi obrigada a parar mais de cinco vezes nas batidas policiais.’’ Ele disse que a medida contrariou frontalmente as promessas feitas pela Secretaria da Segurança de que não haveria qualquer tipo de repressão, inclusive que os ônibus vindos do interior não seriam barrados. ‘‘O major Eli Ribas e o assessor de Assuntos Fundiários, Antonio Carlos Coelho, sabiam desde o ano passado deste evento. Eles nos prejudicaram’’, reclamou o coordenador-geral da romaria. ‘‘Porém, o BPTran e a Prefeitura de Curitiba deram todo apoio’’, frisou.
‘‘O governo do Estado ainda não entendeu o sentido da romaria, que é de paz. É uma caminhada pacífica, somos pessoas ordeiras’’, disse Oliveira. Ele citou como exemplo de organização o cuidado do trio elétrico em baixar o volume de som quando passava por um hospital, a caminho da Pedreira Paulo Leminski, onde ocorreria um show com a cantora Leci Brandão. ‘‘Se o governo não tolera eventos semelhantes, a comunidade aplaude, mostra que está do nosso lado. No trajeto a gente recebe sinais de apoio dos moradores’’, continuou Oliveira.
Na opinião de Oliveira, apesar dos contratempos iniciais com a polícia, o evento atingiu seus objetivos. Compareceram à romaria mais de 15 movimentos organizados, entre eles os que lutam em defesa dos negros, dos posseiros, indígenas e mulheres rurais.
A intenção do encontro é fortalecer moralmente os que lutam por causas sociais no interior e manter diálogo com a sociedade. As conquistas estão acontecendo, mas a violência ao homem do campo ainda é grande e impune. Dos 150 assassinatos ocorridos no Estado, envolvendo questões rurais, praticamente nada foi feito. Esse foi um dos pontos levantados ontem.
O arcebispo de Curitiba, dom Pedro Fedalto, esteve presente ao ato religioso ecumênico no Centro Cívico. ‘‘O homem do campo tem direito a uma vida digna com terra, escola, hospital. Ele merece um preço justo para que possa sobreviver dignamente. Este é um momento de avanço nas causas sociais. Se não houver respeito ao pequeno agricultor, continuará se repetindo a evasão obrigatória do campo para a cidade’’, disse à Folha.
‘‘Essas pessoas não encontrarão trabalho na cidade nem moradia e, por conseguinte, uma vida decente. Sem escola, sem trabalho, vão parar na favela e, em momentos de desespero, se entregarão à violência. O desespero, aliás, leva a tudo’’, observou. Para o arcebispo, a 15ª Romaria representou ‘‘uma síntese de todas as romarias realizadas até hoje no Paranᒒ.

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