RODOVIAS FEDERAIS Corredor entregue ao abandono
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sábado, 02 de novembro de 2002
Giovana Kindlein<br> Reportagem Local 
Perdidos no interior do Brasil e abandonados no Noroeste do Paraná, os poucos 60 quilômetros da BR-272, na divisa com o Mato Grosso do Sul, quase na fronteira com o Paraguai, entre os pequenos municípios de Iporã e Guaíra, passariam despercebidos entre os 50.647 quilômetros de rodovias federais de todo o País, não fosse a curta passagem uma das duas únicas rotas dos caminhões e carretas que transportam metade de toda a safra de soja do Mato Grosso do Sul 1,6 milhão de toneladas até o Porto de Paranaguá, o maior porto de embarque de grãos da América Latina. Outra parte da carga segue pelo tradicional corredor da soja, que une a Região Centro-Oeste (Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás) até o Sul (Paraná/Paranaguá) pela BR-163, passando pela Ponte Ayrton Senna, de quase quatro quilômetros, inaugurada há três anos e meio, sobre o Rio Paraná.
As precárias condições das duas estradas BR-272 e BR-163 , sujeitas constantemente a erosões, são tidas como um dos principais gargalos da logística do Centro-Oeste/Sul. ''O problema transcende a questão empresarial'', afirma o promotor do Ministério Público, em Maringá, Robertson Fonseca de Azevedo, que há quatro anos ingressou com uma ação civil pública, juntamente com a Procuradoria Geral da República, em Umuarama (cidade-pólo da região Noroeste do Paraná), contra a péssima situação do tráfego na BR-272. ''Vidas estão sendo perdidas'', argumenta Azevedo.
Baseado unicamente no Código de Trânsito Brasileiro (CTB), que diz em seu artigo 1º, parágrafo 2º, que ''o trânsito, em condições seguras, é um direito de todos e um dever dos órgãos e entidades componentes do Sistema Nacional de Trânsito'', o Ministério Público requer que o ex-DNER e o Departamento de Estradas de Rodagem (DER) do Paraná sejam obrigados a fazer a recuperação asfáltica no trecho entre Iporã e Guaíra. Além disso, requer a implantação de acostamento, a recuperação da ponte sobre o Rio Piquiri e a readequação do trevo de Guaíra. Como prova, a procuradora Eliana Pires Rocha e os promotores Robertson Fonseca de Azevedo e Laércio Januário de Almeida apresentaram fotos do acidente e morte do delegado-chefe da 7 Subdivisão Policial de Umuarama, Edson de Camargo Barros. ''O acidente é uma prova'', alega o promotor Azevedo.
Na época, há quatro anos, em 6 de maio de 1998, a morte do delegado chocou a sociedade. O Santana em que viajava, junto com o delegado-adjunto José Leme Pereira e o escrivão de Polícia, Carlos Roberto Mello, teria batido em uma carreta quando desviava de buracos na pista da BR-272, em um trecho entre os municípios de Francisco Alves e Guaíra. Morreram os três no acidente. A viúva do delegado-adjunto, Maria Clementina França Terra Leme, 47 anos, não se conforma com a tragédia até hoje. ''Às vezes, tenho vontade de sair gritando pela rua: 'Cadê meu marido?''
A mágoa de Maria Clementina é profunda. ''Existe um buraco dentro de mim que não tem fim'', confessa ela sobre a não-aceitação à morte do marido. Hoje se dedica somente aos filhos Cássio Felipe, 6 anos, e Paula Martina, 10 anos. Não tem semana que a menina não chore e sinta a falta do pai. ''Se pudesse, eu explodiria para trazer meu marido de volta'', declara ela. Depois do acidente, e com a abertura da ação civil pública, o DNER fez uma operação tapa-buraco no trecho. ''Reconheceram implicitamente o pedido do Ministério Público'', comenta o promotor.
No mês passado, depois de quatro anos, o juiz federal Luís Carlos Canalli, deu seu parecer sobre o caso. Indeferiu o pedido de inspeção judicial, ''em razão da extensão do trecho'', mas concordou com a perícia. Os técnicos deverão ser intimados até o fim do ano. Porém, Maria Clementina diz que ''os buracos que haviam naquele local não existem mais''. Existem outros. O promotor sustenta que as condições da estrada continuam precárias. ''A rodovia tem buracos e muitos defeitos na pista'', enumera.


