Querendo ver para crer, tão afamado era o Norte do Paraná na década de 1950, o mineiro de Camanducaia Vicente Barroso ''baixa'' em Londrina, onde se destaca, entre as muitas expressões culturais (''uma nova babilônia''), a Estação Rodoviária. ''Custou uma fortuna. Estilo extravagante, pouco adianta ao púbico em tempo de chuva ou vento'', escreveu Barroso em ''A terra onde se anda sobre o dinheiro''. Deduz-se, pela leitura do livro, que não cogitou sequer entender aquele ''estilo'', que viria a ser um dos projetos essenciais de Vilanova Artigas e referência brasileira no exterior, agora com 60 anos.
Liberada ao uso em 5 outubro de 1952 e inaugurada oficialmente em 10 de dezembro, na administração do prefeito Milton Menezes, a rodoviária custou 5,2 milhões de cruzeiros, a 6 parte da arrecadação municipal. O panorama londrinense mesclava ''todas as raças (etnias), cores, partidos (políticos), religiões, usos, costumes, agitação, instabilidade, corre-corre, febre de terras, febre de café e febre de dinheiro. De fato, tudo isso ali ocorre, sem a menor sombra de dúvida'', anotou Barroso.
Natural de Curitiba, terra branca ao sul, João Batista Vilanova Artigas não resistiu ao fascínio do chão vermelho ao norte, que associou à sua ideologia. ''Tínhamos em Londrina uma fronteira agreste mais vermelha de terra que o vermelho da Revolução (comunista), mas também o vermelho da esperança que nascia para aqueles que abandonavam seus locais de origem (...) em busca de uma nova vida'', escreveu Artigas tempo depois.
O engenheiro José Augusto de Queiroz, a quem se deve uma intervenção no edifício, o inclui entre as construções que se relacionam ''à alma'', em se admitindo que as pessoas desejam coisas além do suprimento das necessidades básicas para fruir. Vê na preservação de patrimônios culturais em outros países um indicativo, levando-o a concluir que ''é preciso cuidar da rodoviária do Artigas''.
Do ponto de vista de Queiroz, o edifício ''está abandonado'' e, por extensão, desprezado o seu potencial histórico e cultural, não transformado em atrativo. Guardadas as proporções, ele menciona a Torre Eiffel, em Paris, que já se pagou 230 vezes em 123 anos, na condição de atração turística bem preservada. ''Aqui a coisa é gozada'', refere-se a Londrina. ''Não sei por que ainda não derrubaram aquilo'', diz ter ouvido de alguém sobre a rodoviária de Artigas.
Há, porém, o reconhecimento internacional e Queiroz destaca uma respeitada publicação francesa, em que as duas únicas referências da arquitetura brasileira são Artigas (1915-1985), com a rodoviária, e Sérgio Bernardes (1919-2002), pela singularidade do hotel na orla de João Pessoa (PB). Contemplando as artes e os ofícios, anualmente a publicação acrescenta duas ou três menções por setor. Embora o Brasil tenha Niemeyer e outros notáveis, só Artigas e Bernardes figuram.
Tendo entre os créditos a Concha Acústica e o lago Igapó, Queiroz defende a manutenção ano a ano dos bens, por implicar custo suportável e evitar a deterioração a que chegou o atual Museu de Artes. Tombado pelo Conselho Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico em 1974 e desde 2011 sob apreciação do Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (Iphan), já tem o projeto de restauração aprovado e aguarda-se a liberação de dinheiro federal para a execução.

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