Luciana Pombo
De Curitiba
Casas de madeira improvisadas, com telhas feitas de chapas de metal e lonas para proteger o local da chuva fazem parte da paisagem das margens da BR-277, entre Curitiba e Itaqui, distrito de Campo Largo. O aspecto das moradias lembra tomadas do filme Mad Max, sobre o futuro decadente das cidades. A Rodonorte, concessionária da rodovia, tem planos de retirar as famílias da região. Em alguns trechos, os terrenos foram invadidos por famílias que dividem água de poços artesianos e utilizam energia elétrica com ligações clandestinas.
No trajeto entre Campo Largo e Curitiba, próximo ao viaduto de entrada do município de Campo Largo, cerca de 35 pessoas moram nos casebres construídos há quase sete anos. A catadora de papel Rita Francisco, de 46 anos, conta que resolveu construir no local porque não tinha dinheiro para alugar uma casa na cidade. ‘‘Eu não tinha condições de alugar uma casa, então peguei minha família e vim construir aqui’’, diz ela.
Os moradores das oito casas feitas nas margens da rodovia fizeram até um local para abrigar animais como cavalo, cachorro, galinhas e uma bezerra. ‘‘Gostamos dos animais e eles aqui se criam bem, sem vizinhos para reclamar da sujeira e do barulho’’, comenta a catadora de papel. Como não passa caminhão de coleta de lixo na região, os moradores acabam jogando o que não presta no próprio terreno, onde brincam as crianças. ‘‘Nunca tivemos problema de saúde por aqui’’, afirma Rita, que começa a trabalhar às 6 horas. ‘‘Estamos sempre trabalhando e vamos lutar até o fim’’, argumenta.
Mas o aparente sossego parece que tem data marcada para acabar. Rita Francisco diz que já foi alertada que terá que deixar o local. A Rodonorte, empresa concessionária da rodovia, começou a retirar algumas famílias ao longo da BR-277. ‘‘Eles já avisaram que vão tirar a gente daqui também. Mas só iremos sair se nos levarem para um local tranquilo’’, alerta.
A assessoria de imprensa da Rodonorte informou que cerca de 400 famílias vivem na faixa de domínio da BR-277. De acordo com a lei federal 6.766/79, é proibido construir até 15 metros além dessa faixa que varia de 60 a 100 metros de cada lado da rodovia. A Rodonorte já fez um levantamento sócio-econômico das famílias que moram irregularmente no local e constatou que em 70% dos casos, elas vivem em situação de miséria absoluta e em 30% em situação de pobreza.
A Rodonorte fez também um cadastramento de todas as famílias para identificar as moradias com placas e numeração, com o objetivo de evitar a construção de novas casas irregulares. Antes da retirada das famílias, a concessionária está tentando negociar com as prefeituras municipais para buscar novas áreas para a construção das residências.

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