Nova Itacolomi - ''Seja bem-vindo lelê, seja bem-vindo lalá, paz e bem para você, que veio participar. Todo mundo vai ter que entrar na roda da terapia. E desce como um galho velho e quebrado e sobe como um galho novo.'' Estas palavras, cantadas ao som de atabaque, violões, pandeiro, triângulo e sanfona, dão início às rodas de terapia comunitária que aquecem corpos e corações de um grupo de 21 idosos do município de Novo Itacolomi (Centro-Norte).
Depois que cada um conta o que lhes tira o sono, começa a cantoria para espantar as lágrimas insistentes. E depois do arrastapé, um canto de despedida estimula o grupo a voltar para casa mais leve, para seguir a rotina com mais tranquilidade: ''Vou balançando mas não vou cair'' é o canto final, com todos interligados, ombro a ombro, simbolizando o balanço da vida.
Foi da simples roda que surgiu a musicalização e a terapia em domicílio para acamados, organizadas pela equipe da Saúde da Família do município. Ao todo, já são 17 rodas que atendem a cidade com pouco mais de dois mil habitantes. Segundo a coordenadora municipal de Saúde Mental e terapeuta comunitária, Ana Paula dos Santos, transtornos emocionais atingem 5% da população e a meta da terapia comunitária é justamente diminuir a distribuição de remédios para depressão no posto de saúde.
Banda Integração
Ela e a agente de saúde Eusélia Gouveia da Silva participaram de uma capacitação da 16 Regional de Saúde, que formou, no último dia 26 de março, 83 agentes comunitários de saúde municipais e regionais em Terapia Comunitária na Atenção Básica. Um levantamento realizado pela Regional sobre o impacto do projeto mostrou que 89% dos participantes tiveram suas demandas atendidas nas práticas da terapia comunitárias, sem necessidade de encaminhamento para outras instâncias de atendimento.
Em Novo Itacolomi, o casal Maria Nabarrete Franco, 64 anos, e José Pereira Franco, 68, decidiu participar das rodas terapêuticas para ''trazer o bem que tem dentro para fora'', justifica Maria. Segundo ela, depois da terapia, ela esquece dos problemas e se sente mais feliz. ''A gente gosta muito de música e de dançar e acaba trazendo alegria para os amigos de roda'', comenta José, que hoje é aposentado, mas trabalhou toda a vida na lavoura.
Na primeira visita a domicílio, eles realizaram a roda de terapia na casa do irmão de Maria, Manoel Moreno Quevedo Filho, 60, que sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) e passou por diversas cirurgias. ''Ele se sentiu tão feliz que pediu para vir até a roda. Estou muito contente de vê-lo aqui'', diz a irmã. Já Manoel proclamou: ''Se eu sarar, o pandeiro vai ser meu'', sobre a participação na banda Integração, que reúne músicos e integrantes da roda terapêutica.
A banda faz tanto sucesso, que já foi convidada a abrir várias cerimônias em prefeituras da região, inclusive cantando na formatura dos terapeutas, em Apucarana (Centro-Norte), no mês passado. ''Temos convite até para a abertura da Conferência Estadual de Saúde Mental em Curitiba'', comemora Ana Paula.
Só sorrisos com o violão em mãos, Anatair Franco de Lima, 64, esquece das tristezas da vida quando está na roda. Taxista em Apucarana, ela coloca gasolina no carro e parte para Novo Itacolomi três vezes por semana para não perder a terapia comunitária. ''Tive um derrame há uns quatro anos, me recuperei e encontrei nos amigos da roda mais um motivo para ser feliz.''
Ela conta que aprendeu a tocar violão e gaita no ponto de táxi e que foi a responsável por levar música à roda. ''Eu trouxe o violão, o atabaque, o pandeiro e a gaita e convidei o sanfoneiro e o violeiro para se juntarem a nós'', diz. Viúva há 19 anos, depois que o marido, também taxista, foi assassinado, Anatair garante que os seis meses de terapia comunitária lhes deram ''mais tranquilidade, paz e esperança para seguir em frente''.
Para a terapeuta comunitária Eusélia Silva, 30, que trabalha como agente de saúde em Novo Itacolomi há três anos, a oportunidade de participar da capacitação foi uma experiência transformadora. ''Mudou meu relacionamento com a família, no serviço. Nas visitas eu já costumava ouvir a população e na terapia a gente só ouve. Fico feliz em ajudá-los a perceber que um problema que antes era grande se torna pequeno diante de diferentes realidades'', avalia Eusélia.
Para ela, os participantes das rodas terapêuticas de Novo Itacolomi já estão mais felizes: ''A gente ouve e acolhe e percebe que há melhora na autoestima de imediato. Hoje vejo as pessoas de outra forma, para mim, todos são iguais''.

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