Agora era sagrado. Toda sexta-feira, depois do trabalho, Marcinha saia para beber uma cervejinha com as amigas. Descasada, o filho criado cuidando da própria vida , sem compromisso com nada, queria aproveitar a recém-adquirida liberdade depois de anos dando satisfação ao rabugento do ''falecido''. Naquela roda de amigas, não se pretendia nada de extraordinário, apenas fofocar com mais liberdade, falar mal dos chefes, dar algumas risadas e voltar para casa aliviadas do stress do dia-a-dia. Saíam cedo para voltar cedo. Afinal, algumas ainda tinham um rabugento em casa.
Naquela sexta-feira, tudo prometia o mesmo roteiro. O barzinho de sempre, a cerveja de sempre e até o petisco rotineiro. Diferente mesmo foi só a presença de uma nova integrante na roda. Renata, uma morena bonitona na casa dos 30 como todas, aliás chegou por acaso quando a conversa já ia animada. Convidada, sentou, pegou um copo e se pôs a beber calada. Escutava o causo de uma, olhava quando outra pedia a palavra e continuava muda. Não ria, não se manifestava, não fazia nada. Apenas bebia. Nem beliscou a comida oferecida.
''Essa tá com problema'', comentou uma da roda para outra, ao lado. ''Vai dar problema, isso sim'' retrucou a outra, com certa maldade ''repara só como bebe''. Marcinha, já com certa experiência de vida, concluiu: ''Isso daí, pra mim, é coisa de homem''. Quem escutou o cochicho, concordou. Só podia ser homem. ''Ô bicho que dá dor de cabeça pra gente'', era a opinião de todas. Mas quem falaria com Renata? A escolha, lógico, recaiu sobre Marcinha. Era cara-de-pau mesmo. ''Cêis me arrumam cada uma. Nem conheço a guria'', reclamou. ''Vai logo'', insistiram.
Para disfarçar um pouco, Marcinha foi ao banheiro. Na volta, sentou ao lado de Renata lugar já previamente desocupado por outra amiga. Tentou puxar papo. ''Cê viu a final do Big Brother? Sempre achei o Rodrigo um gato. Agora com os R$ 500 mil na mão...'' Renata olhou, mas não respondeu. Aliás, essa não merecia resposta mesmo, Marcinha concordou. Ela respirou fundo e atacou: ''Que foi, levou fora do namorado?'' Ouviu-se um ''ahhhhh'' coletivo. A roda não tinha gostado da abordagem nada sutil. Fuzilando as outras com o olhar, Marcinha tentou de novo: ''Olha, se você precisa falar, estamos aqui para ouvir, viu?''.
Renata encarou Marcinha, depois olhou uma por uma da roda e recebeu, de volta, olhares expectantes. Percebeu uma certa ansiedade no ar. Pegou a bolsa no encosto da cadeira, tirou papel e caneta e escreveu, em letras bem grandes: ''Estou afônica''.

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