Robô evita mortes por infecção nos hospitais
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terça-feira, 13 de dezembro de 2016
Simoni Saris<br>Reportagem Local 

A sepse, popularmente conhecida como infecção generalizada, é responsável por 25% da ocupação dos leitos em UTIs no Brasil e hoje é uma das principais causas de mortalidade hospitalar tardia, à frente do infarto do miocárdio e câncer. Todos os anos, 2,5 milhões de casos de sepse são registrados no País, causando a morte de cerca de 250 mil pacientes. O índice de mortalidade decorrente da doença entre os brasileiros é de 65% dos casos bem acima da média mundial, que fica entre 30% e 40%.
Para reduzir o número de casos e o nível de mortalidade causada por sepse nos hospitais, um analista de sistemas de Curitiba criou um robô gerenciador de risco que identifica nos pacientes as chances de desenvolver sepse e permite que a equipe de enfermagem e os médicos evitem que a infecção se instale ou seja combatida ainda no início.
A Robô Laura é um gerenciador de risco que entra no sistema de dados do hospital, acessa as informações, as organiza, classifica e identifica quais pacientes apresentam mais riscos de desenvolver sepse. Os alertas emitidos pela robô surgem em monitores e são separados por cores que variam do azul (casos menos críticos) até o vermelho (alto risco de sepse). Quanto mais altos os riscos da doença, o movimento da tela também muda, característica da robô chamada por Fressatto de "ansiedade de Laura". Além de uma maior velocidade no processamento e leitura dos dados, a robô também aponta quais pacientes devem ser priorizados no atendimento.
A tecnologia é fruto de um trabalho quase obsessivo do analista de sistemas Jacson Fressatto. Laura era o nome da filha dele, que faleceu em 2010 em decorrência da sepse. A partir de então, ele passou dois anos pesquisando a doença e a forma de controle e combate de infecção utilizada pelos médicos e hospitais. "Quando eu entendi que isso era um fator que todo mundo era pego de surpresa porque é preciso reunir muitas informações e nós, como seres humanos, não temos condições de ler tantas informações ao mesmo tempo, percebi que existia uma oportunidade de usar aquilo que eu já estava fazendo para ajudar os hospitais", contou Fressatto. "No caso da minha filha, eles não identificaram o risco da doença por incompetência, mas porque demoraram para ver."
Após a fase de pesquisa da doença, em 2012 a robô começou a ser estudada e testada. "Foram quatro anos para ter os primeiros resultados e poder testar isso na área médica e hospitalar", disse o analista de sistemas, ressaltando que a robô não foi desenvolvida apenas para evitar a sepse. "Ela é um robô que aprende, um robô cognitivo. Ela pode aprender qualquer protocolo da área médica e ser usada para outras funções."
RESULTADOS
O primeiro hospital a contar com a ajuda da Robô Laura é o Nossa Senhora das Graças, em Curitiba, onde começou a operar há dois meses, período em que já é possível observar uma redução nos índices de sepse grave e mortalidade decorrente da sepse. Em setembro, antes do robô, o hospital registrava de cinco a seis casos por mês da doença. Nos primeiros nove meses do ano, foram 55 casos no total. Desses, 15 eram de sepse grave e entre eles, dois evoluíram para óbito. De outubro a novembro, após o uso da nova tecnologia, foram dez suspeitas de sepse, nenhum caso grave e nenhuma morte.
"A robô olha os dados vitais do paciente e cruza com os exames de laboratório para identificar os prováveis casos de sepse. Quando constata algum risco, emite um alerta de que alguma coisa pode estar errada", explicou a médica infectologista Viviane Dias. "Esse cruzamento de dados a gente sempre fez, mas a vantagem é que com a robô a gente está pegando os casos suspeitos de infecção bem mais cedo, antes que fiquem graves."
Segundo a literatura médica, a cada hora que passa, o paciente com sepse que não recebe o tratamento adequado tem aumentada em oito vezes a chance de óbito. Os profissionais do hospital ensinaram à Robô Laura o protocolo da sepse e a cada 3,8 segundos ela faz uma varredura de toda a base de dados do hospital, incluindo prontuário, exames e dados vitais que a equipe coleta e insere no sistema. "O que é interessante é que como a robô aprende, ela começa a estudar a frequência com que a enfermagem coloca os dados no sistema e, quando demora, ela emite um alarme", disse Viviane.
No HNSG, o tempo médio entre uma e outra inserção de dados no sistema era de quatro horas antes da robô. Agora, esse intervalo baixou para 42 minutos. "Reduziu praticamente 75% do tempo médio. Numa situação humana a gente não faria isso. A Laura não substitui, de forma nenhuma, a atuação humana, mas potencializa o trabalho dos profissionais, que agem mais rápido porque têm mais informações", destacou Viviane.
Por enquanto, os monitores que recebem os alertas emitidos pela Robô Laura estão nos setores de oncologia e clínica médica, totalizando 47 leitos. Mas os dados dos pacientes internados nos outros setores também são avaliados pela robô. O resultado da avaliação é enviado à equipe médica por celular ou e-mail. Mas já há um cronograma de ampliação para os outros dez setores do hospital. Os leitos de UTI estão na próxima etapa do cronograma. "É como se a Laura estivesse olhando para dentro do paciente, de várias maneiras, tornando mais dinâmica a atuação da equipe", salientou a diretora de Enfermagem do hospital, Luciane Zanetti.


