O livrinho de espiral no formato de bloco de anotações está no chão. O layout da capa, em preto e branco, é simples como as palavras de apresentação: Hinário de Cura de Padrinho Sebastião. Ao lado, uma cadeira de madeira pende à direita, depois à esquerda. O ambiente à meia-luz torna a cena ainda mais intrigante: um homem de uns 35 anos está se contorcendo como se fosse possível abraçar a si mesmo.
O transe é impressionante: o pé esquerdo permanece dobrado como se estivesse esmagando um inseto. De tanto esfregar o chão, o pé alcança o livrinho, sem que o fiel perceba. O hinário passa a ser danificado pelos movimentos insconcientes.
São os efeitos da ''expansão de consciência'' provocados pelo chá da Ayahuasca (vinho das almas), uma bebida dos índios amazônicos obtida pela cocção de dois vegetais, o cipó Jagube e a folha Rainha. Segundo a doutrina, a expansão é uma experiência de contato com a divindade interior, presente no próprio homem. É a base da doutrina do Santo Daime.
O fiel que se contorce continua com o corpo debruçado sobre os próprios braços e as lágrimas escorrem. O livrinho é salvo da perda total quando acendem-se as luzes no templo. É a senha de que o último período de silêncio e meditação da noite chegou ao fim.
Ainda restam mais uma sessão de hinos, a sessão de aves-marias e de pais-nossos (ambos na linguagem popular), as palavras do dirigente (o comandante da cerimônia) sobre a doutrina e leituras dos ensinamentos do Mestre Raimundo Irineu Serra.
Mas o momento mais intenso que um grupo de londrinenses adeptos do Santo Daime A Doutrina da Floresta viveu na noite do feriado da Proclamação da República já passou. A cerimônia começou por volta das 9 horas e acabou pouco depois da primeira hora da madrugada fria e úmida.
Nesta longa maratona espiritual, que a reportagem da Folha acompanhou e participou na íntegra, as 21 pessoas que frequentam a filial londrinense do Centro Eclético da Fluente Luz Universal Glauco Villas-Boas (sediado em São Paulo) na comunidade a maioria é jovem, sobretudo universitários e cientistas da área de humanas mergulharam em um contraponto de seus mundos, urbano e muitas vezes estressantes.
O ''trabalho'' que a Folha acompanhou é uma reunião quinzenal, quando os fiéis seguem o ritual da celebração do Daime sentados em boa parte do tempo. Há ainda cerimônias especiais, onde, além dos hinos e dos maracás (espécie de chocalho), a celebração inclui a dança.
O grupo é disciplinado e todos encaram o ato de beber um chá de propriedades enteógenas (os seguidores garantem que estudos científicos apontam que a bebida não causa dependência nem tolerância, dois características de substâncias entorpecentes) como um exercício de fé.
A equipe de reportagem foi advertida sobre os possíveis sintomas e com uma certa apreensão entramos no templo. Vômito, náusea, diarréia são os nomes dos temores. Para os fiéis do Daime, são os expurgos dos males físicos e espirituais.
Mas logo a sensação que nos domina é a paz típica transmitida por um templo religioso. Quando chega o momento de experimentar o Santo Daime pela primeira vez, meia hora depois, já estamos razoavelmente integrados ao ambiente sempre dominado pelos cantos de letras singelas e de vocabulário caboclo, muito parecido com músicas do catolicismo popular do Norte e Nordeste e a apreensão dá lugar a curiosidade.
O chá tem tonalidade ocre. É servido em um recipiente transparente, atrás do altar. O rito assemelha-se a uma eucaristia católica. Duas filas são formadas. As mulheres do lado esquerdo. Os homens do lado direito. Cada fiel que recebe o seu quinhão do Daime faz uma reverência e se benzem. O copo é pequeno (50 milímetros) e o líquido é sorvido de uma só vez. Tem um sabor que lembra a mistura de uma conserva de azeitona misturada com terra.
Quarenta minutos depois de ser bebido, o chá passa a fazer efeito. Chega-se à fase de meditação. Sente-se torpor, relaxamento muscular (e desequilíbrio quando se está em pé) e bem-estar. Pequenas dores ou desconfortos desaparecem. O silêncio na igreja é absoluto. Lá fora, as vacas mugem e os grilos e as cigarras fazem a barulheira campestre. O processo de interiorização tem reações distintas. E as cenas que a equipe de reportagem passa a ver lembram sessões de regressão.
Fico resignado e introspectivo. Só a coriza insistente e a sonolência repentina me incomodam, enquanto percebo crises de choro e outras pessoas rindo muito. Os olhos da maioria ficam esbugalhados e as olheiras aparecem.
Os fardados equivalente aos ministros católicos estão a postos. Distribuem rolos de papel higiênico. E a maioria precisa ganhar o pasto úmido para ''expurgar seus males''. Alguns cambaleiam. Vômito e diarréia são encarados com naturalidade. Em torno da igreja, velas funcionam como marcos e guias.
O efeito da Ayahuasca dura aproximadamente uma hora. No segundo ciclo da cerimônia, é servida metade da quantidade do chá para cada fiel. E as sensações não são ampliadas. Elas ganham sobrevida até o final da cerimônia, quando o efeito já é bem mais leve.
(Leia mais amanhã)

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