RITUAL MÍSTICO - Chá do Daime pode ser produzido em Londrina
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 19 de novembro de 2004
Lúcio Flávio Moura<br> Reportagem Local 
O Recanto Bernini fica em uma das regiões mais bonitas de Londrina. Está na zona oeste do município, próximo do Limoeiro e do Três Bocas, de vales verdejantes e morros imponentes. A um quilômetro do Ribeirão Cambezinho, a propriedade rural abriga um pequeno rebanho bovino e cinco tanques de psicultura. Uma propriedade como qualquer outra de poucos alqueires.
A peculiaridade é uma pequeno galpão localizado na descida do vale, com um cruzeiro de três metros de altura cercado caprichosamente com um círculo de pedras pintadas de branco. É o templo que abriga a fé dos seguidores do Santo Daime em Londrina.
A igreja é uma construção rústica, uma espécie de alpendre de uma casa de madeira, hoje sem função aparente. As paredes laterais são feitas de lona preta e de telhas de amianto. O fato das instalações serem improvisadas nem é lembrado nas cerimônias quinzenais e nas outras celebrações do calendário da religião. Mas o dirigente Waldenir Bernini Lichtenthaler, 36 anos, conhecido como Nino, o comandante dos cerca de 30 frequentadores habituais (todos cadastrados) da filial norte-paranaense do Centro Eclético da Fluente Luz Universal Glauco Villas-Boas (da linha do Padrinho Sebastião) projeta adequações no sítio para que ele se transforme em uma comunidade daimista.
A idéia é construir moradias e um templo maior, onde se possa usar os instrumentos musicais com mais intensidade e onde os hinos daimistas ganhariam a amplitude que existe nos centros mais avançados da religião. O outro plano é ainda mais ambicioso. Plantar os vegetais que são a base da Ayahuasca (ou vinho das almas para as tribos amazônicas), o chá com a folha Rainha e com o cipó Jagupe, usado nas celebrações para a ''expansão da consciência'' e para a cura espiritual.
Os sonhos de desenvolver uma comunidade na verdade, a reportagem comprovou que já existe uma convivência estreita entre os membros, que fazem atividades voluntárias e encontros de reflexão fora do calendário oficial daimista em Londrina ganhou um incentivo a mais com uma decisão importante do governo federal em relação à doutrina.
No início do mês, passou a vigorar a Resolução 4 do Conselho Nacional Anti-Drogas (CONAD), assinado por Jorge Armando Felix, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional e presidente do conselho. O documento ratifica a liberação do uso do chá nas igrejas. Desde 1986, as espécies vegetais da bebida foram retiradas das listas da Divisão de Medicamentos (Dimed) após uma resolução do Conselho Federal de Entorpecentes.
De acordo com Felix, a decisão foi amparada com base em uma análise multidisciplinar. A resolução também considerou a importância de garantir o direito constitucional ao exercício do culto e à decisão individual.
Ex-céticos ou fiéis de outras vertentes religiosas, como a umbanda, o candomblé e o próprio catolicismo, os estudantes de Ciências Sociais, João Borelli, 20 anos, Fablício Oliveira Reis, 22, o estudante de Jornalismo, Renato Oliveira, 24, a jornalista e professora Jussara Araújo, a socióloga Joana Buarque de Gusmão, 27, a fisioterapeuta V.H., de 27 anos, são alguns dos beneficiados pela resolução.
Têm um argumento a mais para refutar o estigma enfrentado pelos daimistas. ''O Santo Daime não é alucinógeno como as pessoas pensam. É uma bebida que te aproxima de Deus, como uma obra de arte, por exemplo'', compara Renato Oliveira.
Nino, o dirigente que formou o grupo há cerca de 2 anos e meio, é um antropólogo formado pela Universidade de São Paulo (USP) que viaja pelo Brasil como assessor do projeto Indicadores da Qualidade na Educação, um trabalho da ONG Ação Educativa (com apoio da Unicef, PNUD, Inep e MEC) e que já viveu por dois meses no Parque Nacional do Xingu, no Mato Grosso, para ministrar um curso para índios professores.
O antropólogo, que segue a doutrina desde a época de estudante na capital paulista, quando frequentava o Céu de Maria, um dos núcleos mais urbanos do Santo Daime, disse que as espécies amazônicas são plenamente adaptáveis ao solo e ao clima do Norte do Paraná. Se a comunidade e as mudas prosperarem, o objetivo é produzir o chá em Londrina. A cerimônia da Feitura é um dos rituais mais importantes da doutrina. ''A doutrina impede o proselitismo (pregar para atrair fiéis), mas existe um espírito de crescimento e expansão'', lembra Nino.
Atualmente, os cadastrados pagam R$ 30,00 mensais e a arrecadação completada pelo comércio de insensos é consumida principalmente na compra do chá, que às vezes vem de São Paulo e outras vezes vem do Amazonas (divisa com o Acre). São consumidos 20 litros por mês. O caixa da igreja também é abastecido com contribuições espontâneas de pessoas que vão ao sítio para conhecer a cerimônia e experimentar o ''vinho das almas''. De acordo com Nino, 400 pessoas ainda fora da comunidade contribuíram no primeiro semestre.
E o fenômeno vai se mantendo, ainda respeitando a doutrina dos caboclos amazônicos cujo maior expoente é o Mestre Raimundo Irineu Serra, o homem simples que transformou a vida de intelectuais em todas as regiões do Brasil e em outros 34 países. Os valores de amor à natureza (afinal sem preservação não há chá), o respeito ao sincretismo religioso, o xamanismo, a Nossa Senhora da Conceição (na década de 30, Mestre Irineu teria recebido a doutrina através de uma aparição da santa), em particular, e a outros símbolos católicos, vão sendo difundidos como os índios e os caboclos analfabetos que tomavam o chá no início do século passado jamais poderiam supor.


