A dependência química não escolhe classe social, econômica e nível de escolaridade para se estabelecer. Os especialistas apontam que o crescimento no número de usuários se deve à atuação de uma verdadeira indústria para tornar os indivíduos dependentes. Este assunto foi abordado durante a III Semana de Psicologia, no último final de semana, em Londrina. A médica psiquiatra e psicanalista Maria Lúcia Baltazar, que atua no tratamento de dependentes químicos no Hospital do Servidor Público de São Paulo, levantou, entre outras questões sobre a dependência química, o excesso de informações nos meios de comunicação em detrimento aos questionamentos sobre suas condições de vida e existência.
Para a especialista, nesse imediatismo em que se vive hoje, o indivíduo fica a serviço do gozo que não sabe qual é. ''A avalanche de informações priva o sujeito de sua história e o deixa sem perspectiva de futuro. Não há tempo de contemplação e reflexão'', avalia. Segundo ela, é preciso saber aproveitar as informações para otimizar a reflexão. ''A tecnologia é bem-vinda, mas não deve massacrar o sujeito, que acaba se tornando um escravo dos significados e das informações pré-concebidas'', analisa.
A psicoterapia pode ser um dos caminhos para o dependente químico, que além de proporcionar o autoconhecimento, é um processo terapêutico. Para Maria Lúcia, hoje, vive-se uma ilusão de eternidade. A dependência química vem à reboque dessa filosofia. ''Há um preconceito maior em relação ao dependente químico. Acredita-se que ele é doente porque quer'', analisa. O indivíduo acaba se tornando usuário constante, principalmente, pela perda da capacidade de escolha.
O álcool, droga lícita em que o número de dependentes é maior, anula o sujeito, invalidando sua capacidade de pedir ajuda. O problema é psiquiátrico, médico, cultural e econômico. Durante o encontro, Maria Lúcia Baltazar especificou que a cada dólar que se investe no combate ao alcoolismo, recebe-se dois de volta. Uma das formas de combate ao alcoolismo seria a não veiculação de propagandas que estimulem a dependência. ''A dependência é uma doença, há tratamento e pode ser curada. Não pode haver um estado de desesperança'', conclui.
O dependente substitui sua relação com as drogas e o primeiro passo é restabelecer essas relações com o mundo. Sobre as campanhas, ela acredita que aquelas que levam mensagens proibitivas podem estimular o uso. ''As campanhas de combate ao uso de drogas devem ressaltar os riscos e custos do uso'', finaliza.

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