RISCO NA ESTRADA - Um sacrifício pelo direito de estudar
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terça-feira, 09 de outubro de 2007
Wilhan Santin<br> Reportagem Local 
O sol ainda brilha com intensidade, às 17h, quando o ônibus da prefeitura de Florestópolis (73 km ao Norte de Londrina) deixa a cidade em direção a Londrina. No veículo, dezenas de pessoas - que só vão retornar para suas casas quando já for madrugada, por volta da 1h - viajam em busca da realização de um sonho: o diploma de um curso técnico ou superior.
Assim como os estudantes de Florestópolis, centenas de pessoas de outras cidades da região desembarcam todos os dias nas portas das instituições de ensino londrinenses. Uma rotina cansativa e, em muitos casos, até perigosa. Muitas vezes, o meio de transporte é um ônibus mal conservado e superlotado. Porém, estudar é preciso.
Na última semana, a reportagem da FOLHA embarcou no ônibus de Florestópolis, junto com outros 70 estudantes - o ônibus tem capacidade para 52 passageiros sentados - e acompanhou o percurso até Londrina pela PR-170 e pela BR-369.
Apesar de o veículo ser cedido pela prefeitura, os estudantes pagam de R$ 25 a R$ 40 por mês. De acordo com uma das membros da comissão encarregada de receber a mensalidade, o dinheiro é utilizado para ajudar no custeio do combustível. ''Entregamos o valor arrecadado diretamente no posto onde abastecemos'', explica Aliny Santoro, 25 anos, estudante do curso de técnico em enfermagem. Na lista, 90 nomes. ''Hoje não vieram todos, mas tem dia que acontece de vir todo mundo que está na lista'', relatou uma estudante que pediu para não ser identificada.
''Levanto às 5h para trabalhar. Fico muito cansado, pois não consigo dormir aqui no ônibus por ter que viajar em pé. Semana passada, teve uma fiscalização do Departamento de Estradas e Rodagem (DER) e 28 pessoas que estavam sem lugar para sentar tiveram que descer. Todos os dias vou para a faculdade com medo. O cansaço bate forte. Precisamos de mais um veículo. Se a prefeitura quer nos ajudar com o transporte, que faça da maneira correta. São vidas que estão em risco'', reclama Lauro Henrique Balduíno, 20 anos, estudante de gestão do meio ambiente.
O revezamento pelos 52 lugares sentados é feito por ordem alfabética. Por exemplo, no dia em que os passageiros com nomes de A a L vão sentados, os outros viajam em pé. Cada um dos estudantes fica sem lugar para sentar pelo menos duas vezes por semana. De acordo com o motorista do ônibus, Marinho Novaes Luz Neto, 28 anos, os passageiros desembarcam em 15 pontos diferentes em Londrina. Além do tempo de estrada, ele roda mais de uma hora dentro da cidade. ''É impossível passar por todas as faculdades. Alguns ainda dependem do transporte coletivo para chegar, finalmente, à sala de aula'', explica o motorista.
Questionado sobre o risco da viagem com excesso de passageiros, ele diz que os estudantes não têm outra opção. ''O pessoal faz das tripas coração para estudar; se a prefeitura não ajudasse, nem sei como eles iriam fazer'', destaca.
Os estudantes compartilham histórias parecidas de esforço em busca de um futuro melhor. Porém, as opiniões sobre as condições do transporte se dividem. Enquanto alguns se queixam, outros dizem não se importar com a falta de conforto. ''Para mim, isso aqui é mais uma festa do que um grande sacrifício. O esforço que estamos fazendo, certamente, valerá a pena'', opina Joaquim Cláudio Neto, 31 anos, estudante de Química.
No quarto ano de arquivologia, Gisele de Oliveira, 24, é uma das passageiras mais antigas. Cansada da rotina de trabalhar como recepcionista das 8h às 16h e depois encarar o transporte lotado, ela confessa que chega a faltar às aulas quando é sua vez de encarar a viagem em pé. Mesmo assim, já pensa em um novo curso. ''Pretendo cursar a faculdade de história em 2009.''


