Oferecer uma refeição saudável à família não depende mais da simples escolha de pratos cheios de legumes, verduras e frutas. Por causa da utilização exagerada ou incorreta de agrotóxicos no cultivo de muitos alimentos, os produtos chegam à mesa do consumidor com resíduos irregulares, o que pode representar risco à saúde.
O último levantamento da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mostra que pimentão, pepino, uva e morango são os produtos com maior índice de contaminação. As principais irregularidades, conforme o órgão regulador, são o uso de produtos não recomendados para a cultura ou aplicação excessiva dos defensivos.
Não existem provas concretas sobre a relação entre uso inadequado de agrotóxicos e incidência de doenças como câncer e distúrbios no sistema endocrinológico. No entanto, pesquisas realizadas sobre o tema apontam para a possibilidade de associação entre os dois fatores. No Paraná, por exemplo, que usa uma quantidade anual de agrotóxicos três vezes maior do que a média nacional, pesquisadores investigam se os defensivos podem ter relação com o fato de a incidência de um tipo raro de câncer ser 15 vezes maior no Estado do que no restante do País.
''Ainda não temos como aferir se os resíduos nos alimentos vão trazer danos à saúde, mas sabemos que existem riscos e que o ideal é as pessoas não ingerirem produtos com agrotóxicos. Não dá para menosprezar esse perigo'', afirma Luiz Cláudio Meirelles, gerente geral de toxicologia da Anvisa. A agência mantém desde 2001 o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos (PARA), que avalia a presença de até 230 produtos em vinte culturas em todo Brasil.
O maior problema detectado, de acordo com Meirelles, é o uso de agrotóxicos não autorizados para a cultura avaliada. ''Os produtos autorizados passam por avaliação toxicológica que calcula o risco que o consumidor vai ter ao ingerir o alimento que recebeu o agrotóxico. Se não há análise, existe imprecisão neste risco'', observa.
Segundo o gerente, muitos produtores e extensionistas agrícolas de algumas regiões não têm acesso a informações sobre o uso correto dos defensivos, o que torna difícil reduzir a quantidade de resíduos nos alimentos. Além disso, agricultores têm dificuldade em entender rótulos e bulas dos produtos.
''Outro fator é a escassez de fiscalização, porque o País é muito extenso. Faltam fiscais e estrutura, por isso, a Anvisa foca principalmente na conscientização de agricultores e técnicos'', diz, lembrando que a responsabilidade pela fiscalização é das secretarias estaduais de Agricultura e Ministério de Agricultura.
Sobre os dez anos do PARA, Meirelles analisa que o grande avanço foi em relação à implementação de ações diversas para minimizar a presença de resíduos. ''Vários estados têm políticas próprias de controle de agrotóxicos'', lembra. Além disso, muitos produtos com maior potencial de toxicidade foram retirados do mercado, como é o caso do metamidofós, que só poderá ser utilizado até meados do ano que vem.
Outro avanço citado pelo gerente geral é o comprometimento da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), que passou a monitorar produtos comercializados em grandes redes e inclusive fornece as informações sobre os resultados para a Anvisa.

mockup