Risco de dose em dose
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terça-feira, 05 de julho de 2011
Micaela Orikasa <br> Reportagem local 
Um remédio para dor, outro para pressão, mais um para tontura. Para a maioria dos idosos, medicamento é parte da rotina imposta pela idade e por isso, eles são os maiores consumidores de remédios.
A explicação é simples. Na medida em que a idade avança, surgem as doenças crônicas e a gaveta de remédios só tem de aumentar, assim como os gastos, pois muitos deles chegam a deixar boa parte da aposentadoria na farmácia.
Aos 81 anos, dona Angelina Abreu Cruz contabiliza a quantidade de remédio que toma diariamente. ''São dez. Um para cada doença'', diz ela, que chega a ser conhecida entre os farmacêuticos. ''Chego a gastar quase R$ 500 com remédios. É caro, mas eu preciso deles'', afirma.
Para o geriatra Marcos Cabrera, o grande problema relacionado à compra de tantos medicamentos é o consumo exagerado. ''Os remédios podem gerar uma série de efeitos colaterais, como falta de ar, alergia e sangramento no estômago. Um exemplo claro está nos hospitais. De cada cinco idosos internados, um ou dois têm relação com medicamentos'', comenta.
Uma pesquisa realizada para a Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da USP ouviu mil idosos atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) da cidade e analisou receitas médicas entre novembro de 2008 a maio de 2009. Os resultados revelaram que 30,9% dos idosos tomam remédios por conta própria, 37,1% não usam os remédios conforme prescritos e 46,2% relatam reações adversas aos medicamentos.
De acordo com o especialista, o problema está associado a três práticas. A primeira é a multiplicidade de prescritores. ''O idoso costuma ter vários médicos dentro de cada especialidade e nenhum tira o remédio prescrito por outro. Isso cria uma sequência de medicamentos sem fim'', diz. Com o uso de diferentes remédios simultaneamente, pode haver interação medicamentosa, comprometendo a ação desejada de cada medicamento.
Em segundo lugar é o que os médicos chamam de prescrição em cascata. Neste caso, a pessoa começa a tomar um medicamento e tem como efeito colateral um inchaço na perna. Com isso, ela acaba procurando um outro médico, que irá receitar outro medicamento e poderá originar mais efeitos colaterais. É um efeito cascata.
''E por último, não podemos esquecer da automedicação. As pessoas devem ter mais responsabilidade com esta prática'', diz o geriatra, ao fazer referência aos medicamentos para tontura, que são os mais comuns e podem gerar tanto problemas neurológicos quanto vasculares. ''As chances do indivíduo idoso ter dor é muito alta e ele dificilmente percebe que o remédio para dor pode piorar a pressão alta, o coração, entre outros'', completa.


