Um rio preto com aparência de morto e que os moradores vizinhos evitam chegar perto. Este é o retrato do rio Jacutinga em Ibiporã, alguns quilômetros abaixo da ponte da PR-90, no acesso a Sertanópolis. O quadro foi levado à Folha por agricultores que, antigamente, tinham costume de se banhar e pescar nas águas claras do Jacutinga.
Em visita ao local na terça-feira, a reportagem ouviu inúmeros relatos sobre a transformação do rio nos últimos anos. ''A água hoje é preta, antes não era assim. Quando ficava suja de chuva, tinha a cor avermelhada e não escura desse jeito'', contou o lavrador, Sebastião Ribeiro, que trabalha na propriedade vizinha ao rio. ''Quando cheguei aqui o rio era bem mais claro e tinha muito peixe. Hoje, além de escuro, tem muita espuma'', confirma a dona-de-casa, Dagmar Moreira da Silva, de 24 anos. Ela conta que o filho pequeno e o marido costumavam pescar no local, mas hoje evitam até o contato com a água.
Situação semelhante observa a agricultora, Isabel Ferreira Saldanha, 39, que nasceu em Ibiporã. ''Eu conheço esse rio desde pequena, ele nunca foi preto desse jeito. As pessoas falam que a culpa é das empresas aí para cima, eu também acho, mas não posso garantir'', disse.
A reportagem da Folha percorreu a margem do rio no trecho próximo ao Frigorífico Rainha da Paz, Cortume Wyni do Brasil e a represa de tratamento do Serviço Autônomo Municipal de Água e Esgoto (Samae) e constatou diversos indícios de poluição. Na margem do frigorífico, foram encontrados três lançamentos no rio um deles com despejo contínuo de grande quantidade de espuma, e os outros dois com volume menor. Além disso, perto da Wyni do Brasil, o solo da mata ciliar entre a empresa e o rio está encharcado por um líquido preto e mau cheiroso. A reportagem teve que interromper o trajeto porque os pés começaram a afundar no lodo negro.
O diretor municipal de Meio Ambiente, Amauri Bianchini, disse que o lançamento próximo à ponte pertence à Samae e tem licença ambiental do IAP. ''É a descarga do esgoto depois do tratamento aeróbico e da oxigenação. A espuma é do detergente que não degradou.''
Sobre o problema na mata ciliar da Wyni, ele disse que a empresa alega ter drenado a área há dois anos para construir um novo barracão. Questionado se a lei ambiental não proíbe a drenagem em área de nascentes, afirmou que sim, na maior parte dos casos, e garantiu que vai analisar a situação.
O Samae confirmou o lançamento de resíduos no rio Jacutinga, mas negou que o líquido cause danos ambientais. ''Tem resto de detergente mas não acredito que prejudique o rio'', disse o diretor de Saneamento, Alexandre Casagrande.
O chefe regional do IAP em Londrina, Carlos Alberto Hirata, afirmou à reportagem que vai solicitar uma verificação técnica no local antes de se pronunciar. De acordo com Hirata, a aparência da espuma pode sofrer superdimensionamento em razão do baixo volume do rio no período da estiagem.
A promotora do Meio Ambiente em Ibiporã, Revia de Luna, solicitou à Folha cópia das fotos tiradas no local para abrir investigação sobre a denúncia. ''Vou verificar se houve se existe infração'', concluiu.

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