Osmani Costa
De Londrina
Quem vê a exuberância do Lago Igapó 1 - entre a Avenida Higienópolis e a barragem, na área central -, principal cartão postal da cidade, certamente não imagina como é a sua nascente: uma pequena mina, com cerca de 3 metros de diâmetro, de onde sai pouca água, de cor verde-escura, em meio a um capinzal cheio de embalagens plásticas e todo tipo de lixo urbano.
Pouca gente deve saber, mas o mais importante dos 81 fundos de vales espalhados pela área urbana de Londrina, formado pelo Ribeirão Cambé - que corta a cidade no sentido oeste-leste - começa a alguns metros do trevo onde se encontram as rodovias BR-369 (Avenida Tiradentes) e PR-445 (Celso Garcia Cid). A exemplo do trevo, o ribeirão divide os municípios de Londrina (margem esquerda) e Cambé (margem direita) por alguns quilômetros.
O lado londrinense do triângulo formado pelo encontro das duas rodovias - onde fica a cabeceira do ribeirão - sequer tem nome nos mapas oficiais da cidade. Moradores daquela região chamam o local de Sítio São José. No lado de Cambé fica o bairro Chácara Manela. As águas do ribeirão correm inicialmente por dentro de uma várzea coberta por imenso taboal. Elas vão aumentando de volume e logo formam a primeira represa, protegida por poucas árvores que restaram da mata ciliar.
O ribeirão - que receberá água de 29 afluentes até desembocar no Ribeirão Três Bocas, fora da cidade - corre rumo à área central espremido pelas margens mal cuidadas e sendo objeto de diferentes depredações. Em muitos pontos, até o Lago Igapó 4 (no Jardim Hedy, já em Londrina) há humildes moradias dentro da faixa mínima de preservação permanente, estabelecida pela legislação em 30 metros em cada margem.
A mata nativa das margens foi substituída, em sua quase totalidade, por hortas e pastagens. Nos quintais das casas e chácaras, notadamente no lado cambeense, as famílias criam cavalos, porcos e outros pequenos animais. Nesta parte inicial do fundo de vale do Cambé - da nascente até o córrego Baroré -, em vários locais o ribeirão não passa de um veio de água com poucos centímetros de largura e profundidade.
‘‘O contínuo desmatamento levou à erosão das margens e consequente assoreamento do leito do ribeirão, o que causa enormes prejuízos à fauna e flora nativas do local’’, comenta o engenheiro agrônomo da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Efraim Rodrigues. Na opinião dele, recuperar este e os demais fundos de vales londrinenses é tecnicamente simples e barato. ‘‘O que falta é a sociedade se organizar para exigir, das autoridades, medidas políticas que viabilizem os projetos de recuperação.’’
Dentro do Parque de Exposições Ney Braga, da Sociedade Rural do Paraná, o ribeirão forma a segunda represa, esta melhor cuidada que a primeira. Quanto mais o Cambé desce em direção ao centro londrinense, melhores ficam as condições de proteção de suas margens. Apesar disso, ainda prosseguem comuns os locais utilizados irregularmente como depósitos de lixo doméstico, eletrodomésticos velhos e entulhos de construção. Quem vê somente o azul das águas do Igapó no centro não pode conseguir, mesmo, calcular quanto sofreu e foi desrespeitado o Ribeirão Cambé, desde a sua nascente.
A série sobre os fundos de vale continua na próxima terça e quarta-feiras. Serão mostrados os lagos Igapó e o Parque Arthur Thomas.Uma pequena mina em meio a um capinzal deixa escorrer as primeira gotas de água que vão formar um dos cartões postais de Londrina
Fotos Mário Cesar e Dorico da SilvaÁREA DE LAZERO estudante Rafael brinca às margens do Ribeirão Cambé: fundo de vale é um dos mais importantesA nascente do Riberão Cambé: pouca água, de cor verde-escura

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