Revolta no enterro de jovem morta por PMs
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segunda-feira, 14 de julho de 2008
André Amorim<br>Equipe da Folha 
Porto Amazonas - A cidade de Porto Amazonas (Sudoeste) parou ontem pela manhã para acompanhar o enterro de Rafaeli Ramos Lima, 20 anos, morta por engano por policiais militares na madrugada de domingo, em uma ação desastrosa que tinha como objetivo interceptar um carro de contrabandistas.
Centenas de pessoas compareceram à Igreja Matriz do Menino Jesus, para dar o último adeus à jovem, que pretendia fazer cursinho pré-vestibular em Curitiba para prestar vestibular para Educação Física. ''Mexeu muito com o pessoal, mesmo quem não a conhecia veio (ao velório)'', contou a amiga Renata Morgado, que estava no mesmo baile de formatura de um curso de dança gaúcha de onde Rafaeli saiu na noite do crime.
Enquanto a multidão silenciosa seguia para o cemitério do município, Felipe Ramos Schuhli, primo da vítima, segurava uma faixa: ''A incompetência de um policial tirou a vida de uma jovem inocente''. Acompanhado de outros parentes, ele levou a faixa para a rodovia, no local onde a prima perdeu a vida.
Já no cemitério, amigos e familiares oraram pedindo paz e justiça a um crime que, como lembrou o padre, ''emudeceu toda a cidade''. A mãe da vítima, Tereza de Jesus Ramos Lima, não se conteve e pediu para não fechar a sepultura: ''Não fechem minha companheirinha'', implorou. Um tio da vítima desmaiou e teve que ser socorrido por familiares.
Rafaeli foi morta com um tiro na cabeça disparado por PMs após o carro onde ela estava colidir com uma viatura que vinha no sentido contrário. Os policiais acreditavam tratar-se de um veículo que havia furado dois bloqueios da polícia rodoviária, um em União da Vitória e outro na Lapa, e abriram fogo. Diogo Soldi, de 20 anos, que conduzia o carro, conta que escapou da morte por pouco. Um dos disparos atingiu o vidro próximo à coluna lateral e um estilhaço do projétil o atingiu na bochecha, quebrou três dentes e saiu pela boca. ''Estou vivo porque tenho costume de deixar o banco um pouco mais para trás'', disse. Ainda bastante abalado, ele preferiu não participar do enterro da amiga, a quem costumava dar carona nos finais de semana.
Elton Penteado, segurança que trabalhava em frente ao local do acidente, conta que na noite do crime ouviu a batida dos veículos e logo em seguida cinco tiros. Foi ele que reconheceu Rafaeli no banco do passageiro e avisou o pai dela, com quem trabalha na mesma construtora. ''Os policiais estavam desesperados'', relatou.
O pai de Rafaeli, Jociel Alvelino Machado, afirmou que irá acionar na Justiça os responsáveis pelo crime, mas ainda não pensou exatamente no que vai fazer. ''Agora a dor é grande, a revolta vem depois'', afirmou.
A revolta também estava nos olhos do avô da jovem, José Ramos, que afirmou já ter perdido seis filhos em um leito de hospital, mas que nunca irá se conformar com o acontecimento do último domingo. ''Uma pessoa especializada, que nós pagamos com nossos impostos, não pode tirar a vida da minha neta, não pode'', protestou. (Colaborou Andréa Lombardo)


