Revolta marca velório de moradora
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quarta-feira, 11 de março de 1998
Lúcio Horta 
Milton DóriaDor familiarRobsnei, Lucinei e Claudinei, filhos da Elza da Silva: mãe morreu depois de ver apartamento invadido. Eles não se conformamO corpo de Elza Maria da Silva, 46 anos, foi enterrado ontem, às 13 horas, no cemitério Jardim da Saudade, zona norte de Londrina. Ela morreu terça-feira, vítima de infarto, depois de verificar que o apartamento onde morava, no condomínio Residencial das Américas, havia sido invadido por outro casal. A família acredita que a invasão foi feita com a conivência da administradora Mendes Neto, responsável pelo condomínio e representante da construtora Santa Cruz.
Os quatro filhos de Elza Maria não se conformam com o ocorrido. Ela sempre falava que o sistema lá, no condomínio, era muito rígido. Mas ninguém tinha o direito de invadir o apartamento. Eles mataram minha mãe, disse a filha Lucinei Aparecida Melo, 24 anos, durante o velório, ontem de manhã. Segundo ela, a mãe era uma pessoa calma, alegre, e antes nunca havia apresentado indícios de problemas cardíacos. Mas foi chegar lá que aconteceu isso. A morte dela foi causada por essa invasão e eu quero justiça.
Claudinei Geraldo de Melo, 27 anos, também filho de Elza Maria, diz que a família estava sabendo do problema com o apartamento há cerca de uma semana. Mas até terça-feira, ele observa, a mãe ainda não tinha conseguido entrar na residência. E ontem (anteontem) ela chegou lá, não encontrou as coisas dela e ficou nervosa. Até roupas e fotografias sumiram, aponta Claudinei. Ninguém esperava que ela fosse sair de casa, alegre, e voltar num caixão. Agora vamos ficar em cima até o final. Esse crime foi muito bárbaro.
Para Robsnei Donizete da Silva, 21 anos, outro filho de Elza Maria, não há dúvidas de que a administradora do condomínio foi a responsável pela invasão do apartamento e também pelo sumiço dos móveis. Ele observa que no condomínio tem um sistema rígido de segurança e só entra no local quem estiver autorizado. Como é que na portaria deixaram uma outra pessoa subir no apartamento sem autorização da construtora? Não é possível. Depois eles falam que não sabem nada! Aqui ninguém é bobo, não.
Augusto Mendes da Silva, marido de Elza Maria, disse à Folha que havia atrasado prestações do apartamento - que pagava em juízo - e também da taxa de condomínio. Por isso, ele suspeita, a administradora pode ter simplesmente retirado os móveis do apartamento dele - numa espécie de despejo ilegal - e negociado o imóvel com o rapaz conhecido como Barriga, que havia ocupado o imóvel.
O marido de Elza Maria afirmou ainda que até ontem de manhã não havia sido procurado por ninguém da administradora para discutir sobre a morte da esposa ou mesmo a invasão no apartamento. Até agora, o único contato foi feito pelo advogado da empresa, Antônio Carlos Vianna, com Carlos Kita, advogado da família e também vereador em Londrina (PFL). Segundo Kita, Vianna não teria adiantado nenhuma proposta, só disse que precisariam sentar para discutir um acordo. Desde que o acordo seja razoável, e se houver o consentimento da família, a gente pode fechar.
Carlos Kita afirma também que até ontem de manhã não havia qualquer notícia dos móveis e documentos que sumiram do apartamento de Augusto da Silva no Residencial das Américas. O advogado também observa que ninguém entra sem autorização no condomínio e que não há sinal de arrombamento na porta do apartamento. Tentei entrar em contato com a empresa mas não deram retorno, postura que acho lamentável, diz.
Para o advogado, a retirada dos móveis do apartamento pode ser caracterizada como roubo. Por enquanto, porém, ele prefere não concluir que o fato de o advogado da administradora ter procurado por ele signifique admitir a culpa pela invasão e pela morte da moradora. Não vou afirmar isso. Sobre o processo criminal, Kita acrescenta que a responsabilidade agora é da Justiça, já que o inquérito policial foi instaurado e está sendo conduzido pelo delegado Edson Casagrande, do 5º Distrito Policial. Material colhido na necrópsia foi enviado a Curitiba para exames.


