Revolta contra atropelamento vira tumulto
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terça-feira, 15 de dezembro de 1998
Alexandre Sanches 
Dorico da SilvaA região conhecida como Cinco Conjuntos em Rolândia (25 km a oeste de Londrina) se transformou numa verdadeira praça de guerra anteontem à noite, por causa do atropelamento de cinco pessoas por uma viatura da Polícia Militar. O bóia-fria Policarpe Neves Barbosa, 52 anos, morador no bairro, morreu. Os moradores da região, que fica próxima da BR-369, iniciaram um protesto contra o atropelamento e acabaram promovendo um tumulto.
Eles apedrejaram viaturas da PM e do Corpo de Bombeiros, pararam um comboio da Ferrovia Sul Atlântico e atearam fogo numa locomotiva. Também abriram as portas dos vagões de grãos, despejando-os, e furaram alguns tanques de combustível. A revolta só foi contida por volta das 4 horas de ontem.
Dorico da SilvaO atropelamento aconteceu perto das 19h30. Ficaram feridos André Paulo da Silva, que pilotava uma moto, Alcione Carmen Milagres, Regiane Soares de Lima e o filho de um ano, Lucas Henrique Soares Rocha e Sílvia Cristina Gonçalves. Ontem, somente Regiane e Lucas continuavam internados em observação no Hospital São Lucas, devendo receber alta hoje.
Segundo Regiane, que tem hematomas nas costas, ombros, pernas e sinais de pancada na cabeça, ela atravessava a rodovia, retornando para casa no Conjunto São Fernando, quando foi atropelada. Foi tudo muito rápido. A viatura da PM vinha a uns 120 km/h e não parou no quebra-molas. Ela pegou primeiro uma moto e depois atingiu as bicicletas e quem estava no acostamento. Eu praticamente tinha atravessado a rodovia quando fui atingida, disse. Ela conta que o filho foi jogado nas pedras. Segundo o médico ele poderia ter se ferido muito mais. Só sei que ele está bem, ressaltou.
Na casa de Policarpe Barbosa, ontem à tarde a família aguardava a liberação do corpo dele no Instituto Médico-Legal (IML) de Londrina, que só aconteceu por volta das 18 horas. Os filhos, que moram em Londrina, queriam que o corpo fosse velado e sepultado na cidade, enquanto a mãe, Eva Alves da Cruz, 77 anos, com quem morava há seis anos, e os irmãos, queriam fazer o enterro em Rolândia.
Dorico da SilvaFamília da vítima quer justiçaEle estava separado e os filhos não cuidavam dele. Quem cuidava era eu. Agora querem ficar com o corpo do meu menino. Não deixe isso acontecer. Quero ele aqui com a família e amigos dele, disse Eva, desconsolada. No final da tarde a família decidiu que o corpo seria velado no Centro Comunitário do Conjunto Cafezal 2, em Londrina. O sepultamento será hoje, às 10h30, no cemitério Jardim da Saudade.
Eva afirmou que Policarpe foi até a casa de uma amiga e que voltava para casa na hora do acidente. A irmã, Francisca Ramos do Nascimento, 46 anos, pede justiça. Mesmo considerando uma tragédia o que aconteceu, ela não entende por que a polícia estava correndo tanto e não parou no quebra-molas. Deve-se respeitar a lei. Por isso a polícia tinha que respeitar o limite de velocidade.
Segundo o sobrinho Paulo Cesar Nascimento, testemunhas afirmam que a viatura estava correndo atrás de um motociclista que passou pela praça de pedágio, na divisa com Arapongas, sem pagar. A lei tem que prevalecer para todos. Não podemos deixar que a polícia saia impune deste crime, afirmou.
Dorico da SilvaRegiane e o filho Lucas, de 1 anoA Polícia Militar está requisitando as fitas de vídeo das emissoras de televisão da região para identificar os autores dos atos de vandalismo que se seguiram ao atropelamento. De acordo com o comandante interino do 15º Batalhão em Rolândia, major José Cesário de Paula, após o atropelamento os moradores impediram a polícia de retirar o corpo do local e quase não permitiram que fosse realizado o laudo do acidente.
Foram chamados reforços dos batalhões da PM em Londrina e Apucarana. Houve resistência dos moradores em deixar a área. Quatro pessoas, sendo dois menores, foram presos por atos de vandalismo e vão responder a inquérito criminal. Vamos identificar e responsabilizar as pessoas que participaram do tumulto. É lamentável este acidente, disse o major. Ontem, muitos curiosos acompanhavam a distância a movimentação no local do acidente, enquanto funcionários da prefeitura retiravam os cereais da beira da ferrovia. Duas equipes do Pelotão de Choque, de Londrina, continuavam de prontidão no batalhão, caso houvesse novos tumultos.


