Com 20 anos, o austríaco José Licha chegou ao Patrimônio Três Bocas em 25 de maio de 1930 e se tornou o primeiro tropeiro da Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP), incumbido de mostrar o loteamento aos compradores, que tinham à disposição burros e mulas. Aos 100 anos, completos no mês passado, é um dos quatro pioneiros mais idosos reverenciados pela Associação Teuto-Brasileira do Norte do Paraná (Germânico) nas comemorações do Município e da imigração.
Os outros são os alemães Guilherme (Willy) Guy, de 104 anos; Ronald Tkotz, com 92; e Helga Kisser, 90. Em 2009 eles receberam a medalha de ''pioneiríssimo'' e ouviram canções de suas vidas.
Os Licha chegaram ao Brasil em 1926, fixando-se em Ipauçu (SP), de onde se mudaram para Londrina em julho de 1931, indo ocupar o sítio na Água do Quati. Vieram o casal Rosina-Michael Licha e seis dos oito filhos, dos quais José havia se adiantado. Os irmãos Antônio e Franz também trabalharam na colonizadora.
Aos 100 anos, José mora no Sítio Santa Margarida, na Gleba Três Bocas, aos cuidados da filha Margarida e da neta Maria Helena. Perdeu a capacidade de rememorar, se confunde. Mas sorri, tenta dialogar e até solfejou uma canção ao ser homenageado.
''Onde as ondas do Mar do Norte batem na praia, lá é minha pátria, é meu lar'' - são os primeiros versos de uma das canções, traduzidos pela corista Elisabeth Dolejschi. ''As ondas foram minhas canções de ninar, mas minha vontade era de voar pelo mundo, procurar a minha felicidade. Eu a encontrei, mas a saudade da minha terra ficou.''
Provavelmente, relembram pessoas saindo de centros adiantados na Europa para uma região inóspita no Brasil, finalmente a nova pátria. ''Se o Norte do Paraná pudesse falar, ele cantaria muitas canções que meu pai e eu cantamos quando serramos troncos de perobas'', disse a professora Helga Schmidt Kisser, orgulhosa ao receber sua medalha.
Da Alemanha, Heinrich Schmidt, Bertha (a esposa) e os filhos, Helga e Peter ainda crianças, chegaram a São Paulo em 1926. Heinrich trabalha na Sociedade Beneficente Alemã e a família teria ficado em São Paulo, não fosse a ascensão de Hitler, que passou a influenciar alemães no Brasil, cujas ruidosas manifestações nazistas constrangiam quem não desejasse aderir. E os Schmidt chegaram a Londrina, em 11 de maio de 1935. Após alguns dias no Hotel Luxemburgo, foram para o sítio no Heimtal, que Helga ajudou a desbravar. Ela tinha 15 anos e Peter, 12.
Helga casou-se com Emílio Kisser, teve três filhos e ficou viúva em 1953. Professora de alemão, mais tarde manteve, juntamente com Ernesto Walter, a Livraria Alemã, uma referência em Londrina.

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